LUANA, LULA E OS CEM ANOS DE LIMA

Lima Barreto

Ontem, segunda-feira, em algum momento, o nome da atriz Luana Piovanni apareceu nos trend topics do twitter e vi que era por conta de alguma treta com o pai de sua filha, algo assim, não me atentei, nem me interessei muito, mas confesso que fui com a mente lá atrás e me lembrei de um episódio corriqueiro antigo sobre a moça. Já era por volta do golpe, o país afundando, mil demandas, e em alguma entrevista, ou post em rede social, a moça reclamava, uma reclamação até sincera, white people problems total, sobre a cobrança diária por post de engajamento na internet por parte de pessoas públicas, de posicionamentos políticos a todo o momento. Segundo ela, a avalanche de causas sociais não estavam deixando espaço pra uma simples foto de biquíni, sem que fosse criticada e chamada de alienada. Não tenho nenhuma simpatia pela atriz, mas achei engraçado na época.
E isso me fez lembrar uma sensação que me veio com a eleição do Lula no domingo… Sério. A impressão de que passado esse momento pesado da extrema-direita no poder, em algum momento lá na frente poderemos voltar a um mínimo de normalidade, de conquista de um ambiente onde a gente possa publicar posts sobre as coisas que nos tocam, sem necessariamente estar no espectro da urgência de militância. Soa engraçado, mas é um sentimento genuíno.
E isso tudo pra dizer, de forma exemplar, que hoje à noite me veio uma lembrança que remete a tanta coisa que me dá vontade de escrever e que nos últimos seis anos foram por vezes desencorajadas em meio às avassaladoras notícias que a política nos traziam.
Esta noite, por exemplo, 01 de novembro, completam-se cem anos de nascimento do escritor Lima Barreto. Um dos número um. Imenso Lima. O cara. Nunca conseguirei traduzir a força de Lima Barreto em tudo o que vim a ser no mundo.
Leio Literatura cada vez menos hoje em dia, mas quando moleque era uma coisa que me construía direto, me acendia luzes e instigava. Machado de Assis era um que me influenciou bastante e começou a dar pistas sobre o que tava debaixo do tapete da construção do que era o país. E como era possível usar da ironia e da metáfora de forma desnudadora. Mas Lima foi impactante e decisivo. Inclusive porque ele na minha vida surgiu primeiro como tema de um samba-enredo da Escola de Samba Unidos da Tijuca quando era moleque, o que chamou muita atenção. Aliás, tenho dois amigos, Renato de Alcantara e e Vitor Godô Quincas, que sabem a letra inteira desse samba até hoje.
Lima Barreto, entre tantas coisas, é um diagnóstico preciso e precioso do Brasil com cem anos de antecipação.
A vida do povo, a questão da brasilidade, o peso definidor do racismo na sociedade brasileira, a arrogância da elite, a crítica mordaz, ferina até, contra a ”pose” vazia da intelectualidade da classe média carioca; o uso genial da ironia, do sarcasmo; a elegância no texto e as histórias em si de seus livros. Os Bruzundangas, sensacional; Clara dos Anjos, um visão nítida sobre a situação da mulher negra no país; Triste Fim de Policarpo Quaresma, genial. Sem falar dos contos clássicos.
Ainda tem uma percepção pessoal de que Lima se deu mal logo de cara, por seu livro de estreia, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, por bater de frente com a pseudo intelectualidade do Rio de Janeiro da época, denunciando a boçalidade e superficialidade da maioria de seus representantes. E também por dar uma zoada fortíssima na figura do dono do jornal, que era inspirado em ninguém menos do que o Irineu Marinho, pai do Roberto Marinho, que mandou muito nesse país durante décadas. O primeiro romance de Lima já o colocou como um cara não bem quisto nas rodas “oficiais” da carioca e ainda numa lista de indesejáveis do principal patrão do jornalismo da época.
Já brindei Lima Barreto hoje e aproveitei pra brindar mais uma vez o Luiz Inácio, na esperança de que teremos no futuro mais espaço e mais tesão pra escrever sobre tantos assuntos que são despertados pela riqueza imensa de nossa Cultura tão pródiga de gênios como Lima.
Que a gente continue ligados na política, que é e será um combate necessário demais, mas que tenhamos também espaço pra botar nossas fotos de biquíni de vez em quando.

[ heraldo hb – pitacolândia – novembro de 2022 ]


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