Depoimento de João Pedro Stédile, do MST, sobre Leonel Brizola

Aniversário de Leonel Brizola, o grande Itagiba, hoje me fez lembrar esse texto que João Pedro Stédile escreveu sobre ele. Acho um depoimento muito amoroso, uma percepção muito humana, histórica, fraterna, com certa vibração gaúcha 🙂

“Trago comigo muitas lembranças de nosso querido Brizola. Lembranças que vem de longe.

Minha primeira escola no interior de Lagoa vermelha foi construída graças a um programa de escolas rurais que havia no governo Brizola, do Rio Grande do Sul, que construiu escolas em todas as comunidades rurais, e que todo mundo chamava de “brizoletas”.

Por tanto, desde criança, soube que a prioridade do governador era a educação e ele tinha razão. Tenho lembranças de acompanhar com meus familiares, lá no interior, os programas da rádio Farroupilha, nos históricos episódios da campanha da legalidade de 61, com o governador pedindo pros gaúchos lutarem e defenderem o direito de João Goulart assumir a presidência. E tinha razão.

Naquela época não conseguia compreender, pela idade e ate por que minha família camponesa, católica e conservadora não era do mesmo partido de Brizola, as políticas que o governador tomava no estado: de estatizar a companhia telefônica americana, ITT. De desapropriar terras dos gringos uruguaios, os Mailios, que eram donos de 32 mil hectares da fazenda Sarandi, de ter criado a primeira siderúrgica do estado, de ter cancelado a divida externa do estado… De apesar de ser um governador tão jovem, se comportar de forma simples e humilde, como qualquer cidadão gaúcho, que chamava atenção de todo mundo. Talvez por sua origem pobre do interior de Carazinho.

Os contrários, os chimangos, como dizemos no sul, só falavam “que Brizola estava organizando os grupo de onze, em cada município, de forma clandestina para implantar o comunismo no Brasil”.

Veio o golpe militar. E ele teve que amargar o exílio. E de novo acertou no destino, foi pro Uruguai e continuou como gaúcho, perto de seu povo.

O povo brasileiro amargou uma derrota política com o golpe militar, e foram longos anos, de descenso do movimento de massas e de repressão.

Fui estudar no México. Em belo dia, por conta das amizades que tinha com Neiva Moreira, Beatriz Bissio, Rui Mauro Marini, Thetotonio dos Santos, Padre Lage, Francisco Julião, Severo Salles, e outros tantos brasileiros queridos que la viviam, pude então conhecer pessoalmente o governador Brizola. Matei as saudades, com vinte e tantos anos de atraso, da figura lendária que só tinha conhecido por radio. Fiquei impressionado.

Ela andava metido com as ideias de refundar o seu PTB. Naquelas andanças, eu já andava mais à esquerda. Aprendi com a tradição política gaúcha, que devíamos separar o que eram ideais políticos, convicções doutrinárias, com o que significava a figura histórica do governador.

Com ele ouvi e aprendi muitas lições da luta pela terra no Rio Grande, nos tempos do velho MASTER (Movimento dos Agricultores Sem Terra), que, de certa forma é também, junto com as Ligas Camponesas e as Ultabs, os avós do MST. E com certa razão, Brizola chamava os militantes do MST, de seus netos, pois se orgulhava de haver fundado no Rio Grande, o Master.

Como vêm, me orgulho, e conto isso aos meus filhos de poder ter conhecido e privado de certa amizade, com esse que foi um dos grandes lutadores do povo Brasileiro. Desde os idos de 50 quando se elegeu prefeito de Porto Alegre, até sua viagem definitiva para rever dona Neuza, foi uma pessoa que passou mais de 50 anos, participando em todos os fatos políticos importantes da história do Brasil.

E participou sempre, de forma apaixonada, corajosa, audaciosa.

Ousada.

Ele faz parte das grandes figuras do século vinte. Entre os melhores filhos e lutadores de nosso povo.

Grande Briza! Deixou sua marca em nossa historia!

Um abração,
João Pedro Stedile”

 


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