{"id":981,"date":"2020-04-28T20:50:48","date_gmt":"2020-04-28T20:50:48","guid":{"rendered":"https:\/\/relinkare.org\/site\/?p=981"},"modified":"2020-11-01T17:04:25","modified_gmt":"2020-11-01T17:04:25","slug":"homenagem-a-mangueira-uma-historia-que-a-historia-deveria-contar-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/relinkare.org\/site\/homenagem-a-mangueira-uma-historia-que-a-historia-deveria-contar-mais\/","title":{"rendered":"HOMENAGEM \u00c0 MANGUEIRA, UMA HIST\u00d3RIA QUE A HIST\u00d3RIA DEVERIA CONTAR MAIS"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje, 28 de abril, a <strong>Esta\u00e7\u00e3o Primeira de Mangueira<\/strong> completa noventa e dois anos de vida e s\u00f3 penso aqui que todo mundo tinha que conhecer pelo menos um pouquinho essa hist\u00f3ria incr\u00edvel. Na verdade, todo mundo deveria conhecer era um pouc\u00e3o da hist\u00f3ria do Carnaval das escolas de samba, daquela g\u00eanese altamente inventiva no come\u00e7o do s\u00e9culo passado e que ainda d\u00e1 pra perceber seus tra\u00e7os mais fortes em escolas como a Portela, o Imp\u00e9rio Serrano e a Mangueira, onde essa presen\u00e7a ainda \u00e9 marcante ao extremo. Na Esta\u00e7\u00e3o Primeira ent\u00e3o\u2026 \u201cMangueira \u00e9 um canto de f\u00e9, que leva o samba na poeira e no p\u00e9\u201d.<br>S\u00e3o muitas as refer\u00eancias da verde e rosa na minha vida nesses anos dessa ind\u00fastria vital, refer\u00eancias que espalham coisas muito mais do que o assunto Carnaval. Aproveito a efem\u00e9ride e dedico aqui uns minutos pra lembrar algumas dessas coisas, como uma forma de fazer uma homenagem, pequena mas sincera, a essa bonita jornada.<br>A primeira refer\u00eancia que me vem \u00e0 mente tem um gosto especial de lembran\u00e7a boa, por v\u00e1rios motivos. \u00c9 que minha m\u00e3e em um momento da vida se apaixonou por um moleque da Mangueira, bem mais novo que ela, com quem teve dois filhos, e que conviveu com a gente um tempo l\u00e1 em casa. O Teba era uma figura, erudito, de fala empolada, um cara gente boa que, n\u00e3o fosse um desses transtornos tipo bipolaridade, borderline ou coisa assim, seria uma pessoa \u00f3tima de conviver no dia a dia.<br>Apesar de termos uma rela\u00e7\u00e3o dessas bem conflituosas entre enteados e padrastos, um dia o sujeito me convidou pra ir com ele l\u00e1 no alto do Morro, onde ele tinha um barraco e onde uma parte de sua fam\u00edlia ainda morava.<br>J\u00e1 vai a\u00ed uma p\u00e1 consider\u00e1vel de anos, mas algumas lembran\u00e7as desse dia ainda viveram bem n\u00edtidas na lembran\u00e7a durante anos e algumas ainda existem bem firmes at\u00e9 hoje.<br>Com quinze anos, al\u00e9m de ler muito, eu j\u00e1 era envolvido com pol\u00edtica, com gr\u00eamio, e j\u00e1 tinha conhecido algumas favelas por conta da milit\u00e2ncia, principalmente a Vila Ideal onde o amigo Gordo coordenava o n\u00facleo do PT de l\u00e1. Mas nada se comparava ao que vi adentrando a Mangueira, subindo pelo famoso Buraco Quente.<br>Nunca gostei de romantizar a pobreza, mas ali tinha uma coisa que de fato s\u00f3 me dei conta muitos anos depois, que \u00e9 uma certa aura de dignidade que existe em algumas pessoas independente das circunst\u00e2ncias materiais. Como o Teba era um cara bem conceituado no morro, acabei trocando ideias com muita gente l\u00e1 e essa impress\u00e3o ainda sem nome ficou marcada em mim com for\u00e7a. O acolhimento, o bom humor, a comida, as zoa\u00e7\u00f5es, a chuva de \u201cbom dia, aben\u00e7a, deus-te-aben\u00e7oe\u201d que se ouvia em todo o canto.<br>As imagens tamb\u00e9m imprimiam forte na mente. As vielas, os pontos com esgoto escorrendo, as pessoas conversando na porta das casas, muita crian\u00e7a, o cheiro do caf\u00e9, a arquitetura mirabolante de alguns dos barracos. Lembro de ver alguns bandidos em alguns lugares da parte de baixo, sem ostenta\u00e7\u00e3o, numa \u00e9poca em que o fuzil ainda n\u00e3o era o padr\u00e3o de armamento das favelas.<br>Lembro que toda hora vinha \u00e0 mente o famoso samba chicletoso do Zuzuca e ali descobri que n\u00e3o existia um lugar chamado Tengo-Tengo, mas que existia Santo Ant\u00f4nio e que o Chal\u00e9 era l\u00e1 no pico da colina e era onde morava a \u201cfina-flor do bom-viver\u201d, nas palavras do Teba, numa tradu\u00e7\u00e3o bem boa do conceito de malandragem como os compositores do samba definiam.<br>Era o ano de 1988 e a Mangueira se preparava pra botar na Avenida um enredo sobre os cem anos da Lei \u00c1urea, com um samba que ia marcar a hist\u00f3ria e que na \u00e9poca eu n\u00e3o tinha a menor ideia da amplitude disso.<br>Essa visita durou manh\u00e3, tarde e um peda\u00e7o da noite e desse dia em diante a Mangueira sempre me remeteu a algo bem maior do que uma escola de samba. Demorei anos pra entender e processar aquela visita. Na verdade todo cara com quinze anos \u00e9 meio prego de certa forma e al\u00e9m disso a marra de adolescente te p\u00f5e um v\u00e9u de achar que se sabe tudo, que j\u00e1 entendeu tudo antes que te expliquem. Com o tempo percebi como perdi tanta coisa rica que eu poderia ter processado daquele contato. Mas o principal acho que ficou e marcou minha alma indelevelmente.<br>Uma outra vez estava no \u201cesquenta\u201d da Mangueira antes de um desfile no Samb\u00f3dromo e me lembro a emo\u00e7\u00e3o da chamada da bateria e do discurso de algu\u00e9m (que a mem\u00f3ria falha, mas que devia ser algu\u00e9m da diretoria) falando de como a Mangueira era uma na\u00e7\u00e3o e de que como foi importante pra luta pol\u00edtica pela democracia, acolhendo e acoitando v\u00e1rios perseguidos pela ditadura. Par\u00eantesis: todo mundo devia um dia ir \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de um desfile de escola de samba, nos minutos do esquenta \u2013 fecha par\u00eantesis. Nesse dia eu chorei muito e me lembrei daquela visita da adolesc\u00eancia e pra mim se completou o sentido definitivo de uma frase que certa feita vi o mestre <strong>Rubem Confete<\/strong> dizer: \u201c a Mangueira \u00e9 um quilombo\u201d.<br>Com o tempo tamb\u00e9m fui anotando as profundas liga\u00e7\u00f5es afetivas da Mangueira com minha cidade, Duque de Caxias e isso foi e \u00e9 muito legal de saber. Ali\u00e1s, pesquisas que um dia ser\u00e3o publicadas de forma mais detalhada e que d\u00e3o conta da aproxima\u00e7\u00e3o carinhosa da Velha Guarda verde e rosa com a cidade.<br>A come\u00e7ar pelo grande <strong>H\u00e9lio Cabral <\/strong>que al\u00e9m de ser o mais conhecido membro da lend\u00e1ria escola de samba <strong>Cartolinhas de Caxias<\/strong> tamb\u00e9m teve destaque na Mangueira, sendo, por exemplo, possuidor da carteirinha de n\u00famero 16 da hist\u00f3rica Ala de Compositores da agremia\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, \u00e9 de autoria de <strong>Pelado, Padeirinho e Preto Rico<\/strong>, trio peso-pesado de mestres da composi\u00e7\u00e3o desta ala, o primeiro samba do <strong>Bloco de Enredo Imp\u00e9rio do Gramacho<\/strong>, fundado em 1972, em Caxias. Ali\u00e1s, o Imp\u00e9rio foi batizado pela Mangueira, em 1975, feito lembrado pelos baluartes do Bloco, hoje presidido por Em\u00edlio Reis, neto de Seu Clodomiro de Oliveira, bamba bastante considerado no meti\u00ea do universo sambista do Rio.<br>Lembro do amigo Cezar Moutinho, o<strong> \u00cdndio da Mangueira<\/strong>, um dos passistas mais famosos do pa\u00eds, figura carimbada no Carnaval do Rio. Lembro da <strong>Squel<\/strong>, caxiense, esbarrando com ela pelas ruas da cidade, j\u00e1 menina porta-bandeira, de corpo-alma denunciando no andar aquela certa altivez que vem de um reconhecimento de sua ancestralidade marcante. Ali\u00e1s, depois lembro dela j\u00e1 brilhando na <strong>Grande Rio<\/strong>, e um dia, na <strong>Sociedade Musical e Art\u00edstica Lira de Ouro<\/strong>, em evento do amigo <strong>Nen\u00e9m Kant\u00e3o<\/strong>, homenagem ao mestre <strong>Xang\u00f4 da Mangueira<\/strong>, descubro que Squel \u00e9 neta do h\u00f4mi, grande destaque do m\u00edtico pante\u00e3o mangueirense.<br>E o que dizer do desfile da Mangueira na Sapuca\u00ed em 2019, <em>A Hist\u00f3ria que a Hist\u00f3ria N\u00e3o Conta<\/em>? Lembro no desfile das campe\u00e3s a como\u00e7\u00e3o, uma bandeira gigante com o rosto da Marielle no setor um, o desfile arrebatador, o samba cantado a pulm\u00f5es a ponto de explodirem, uma velhinha do nosso lado chorando e rindo, chorando e rindo sem parar, a gente vendo o povo pressionando o cord\u00e3o dos seguran\u00e7as ao final do desfile e invadindo a pista e seguindo com a Mangueira, tal como em 1984, milhares de pessoas at\u00e9 quase sete da manh\u00e3, at\u00e9 a bateria parar de bater j\u00e1 exausta pela quantidade de horas, o dia amanhecido, o Brasil dos poderosos expurgado, a alma lavada, as trocas c\u00famplices de olhares. A Mangueira nesse dia vingou o povo da melhor forma que sabe fazer: com m\u00fasica e verdade na veia. O Brasil popular profundo, a Hist\u00f3ria de um pa\u00eds massacrado mas que n\u00e3o se entrega.<br>Pra fechar um coment\u00e1rio sobre Educa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de achar que se devia estudar a Mangueira em escola b\u00e1sica, penso que dariam \u00f3timas aulas de literatura estudando os sambas do <strong>Cartola <\/strong>e os poemas do <strong>Carlos Cacha\u00e7a<\/strong>, este um bamba da poesia a quem <strong>Aldir Blanc e Moacyr Luz <\/strong>chamaram de g\u00eanio da ra\u00e7a em um lindo samba. Dois intelectuais populares dos mais fecundos e que n\u00e3o devem nada em profundidade liter\u00e1ria a v\u00e1rios autores can\u00f4nicos que habitam as grades curriculares oficiais. Mas talvez ter dois poetas eruditos populares com os nomes de Cartola e Cacha\u00e7a n\u00e3o seja de bom tom, n\u00e9? Sei l\u00e1, s\u00f3 pensando aqui.<br>No mais \u00e9 isso: parab\u00e9ns \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Primeira de Mangueira e a essa hist\u00f3ria que vem sendo contada h\u00e1 92 anos (ou ser\u00e3o 520?) com muita garra e afeto. Raiz \u00e9 parada forte. Ax\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>.<br>[ <strong><em>heraldo hb \u2013 pitacol\u00e2ndia &#8211; abril de 2020<\/em><\/strong> ]<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, 28 de abril, a Esta\u00e7\u00e3o Primeira de Mangueira completa noventa e dois anos de vida e s\u00f3 penso aqui que todo mundo tinha que conhecer pelo menos um pouquinho essa hist\u00f3ria incr\u00edvel. Na verdade, todo mundo deveria conhecer era&#8230;<br \/><a class=\"read-more-button\" href=\"https:\/\/relinkare.org\/site\/homenagem-a-mangueira-uma-historia-que-a-historia-deveria-contar-mais\/\">Leia mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_kadence_starter_templates_imported_post":false,"footnotes":""},"categories":[7,215],"tags":[83,238,243,75,80,85,28,33],"class_list":["post-981","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pitaco","category-pitacolandia","tag-carnaval","tag-cultura-brasileira","tag-helio-cabral","tag-historia","tag-imperio-do-gramacho","tag-mangueira","tag-rio-de-janeiro","tag-samba"],"views":1433,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/981","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=981"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/981\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":983,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/981\/revisions\/983"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=981"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=981"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=981"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}