{"id":56,"date":"2012-11-04T05:08:55","date_gmt":"2012-11-04T05:08:55","guid":{"rendered":"http:\/\/relinkare.org\/site\/?p=56"},"modified":"2013-07-15T06:01:32","modified_gmt":"2013-07-15T06:01:32","slug":"fraternidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/relinkare.org\/site\/fraternidades\/","title":{"rendered":"Fraternidades"},"content":{"rendered":"<p>Coisa que sempre fascinou a Humanidade ao longo dos s\u00e9culos foi a exist\u00eancia de sociedades secretas, dessas sobre as quais se formam todo um conjunto de m\u00edtica e atra\u00e7\u00e3o. Dos mais variados formatos e com os mais diversos fins esses grupos mexem com a imagina\u00e7\u00e3o de uma forma arrebatadora, mesmo quando existe mais lenda do que realidade de fato. S\u00f3 os Cavaleiros Templ\u00e1rios, por exemplo, s\u00e3o respons\u00e1veis por zilh\u00f5es de publica\u00e7\u00f5es, seriados, reportagens especiais, s\u00e9ries, filmes e muito, muito debate sobre suas lend\u00e1rias atua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Digo isso porque eu mesmo j\u00e1 fui fundador de uma sociedade que, se n\u00e3o chegava a ser secreta, era pelo menos levada bastante a s\u00e9rio enquanto durou, com todos seus rituais e cobran\u00e7as espec\u00edficas. Para muitos o objetivo n\u00e3o era assim t\u00e3o nobre, mas para n\u00f3s era de vital transcend\u00eancia: a Sociedade dos Bebedores de Cerveja no Gargalo. N\u00e3o durou muito por motivos at\u00e9 bem simples. Al\u00e9m da falta de sentido per si \u2013 o que n\u00e3o nos preocupava \u2013 as sa\u00eddas em conjunto n\u00e3o resistiram aos apertos econ\u00f4micos da \u00e9poca e \u00e0 estranheza de amigos e namoradas ao ver seis marmanjos tomando cerveja como animais, cada qual com sua garrafa de 600 ml. Admito que deveria ser realmente estranho.Mas desejo tornar p\u00fablico a partir de agora a exist\u00eancia de um grupo que durante um consider\u00e1vel tempo existiu de forma clandestina, inc\u00f3gnita, e que exigia de seus participantes um grande disp\u00eandio de energia carmicastralqu\u00edmica.<\/p>\n<p>Espero que meus confrades da \u00e9poca compreendam as reais necessidades que me impelem a tornar p\u00fablico esse fato. Sei que corro s\u00e9rios riscos de retalia\u00e7\u00e3o, mas os motivos deste ato ficar\u00e3o \u00f3bvios e resolvi correr esse risco, quebrando um juramento feito com palavras molhadas a doses consider\u00e1veis de \u00e1lcool.<\/p>\n<p>Era o ano de 89 e a expectativa de votar para presidente impregnava o ar de uma forma m\u00e1gica e embriagante. N\u00e3o se votava para presidente desde 62 e o governo Sarney se mostrava exatamente o que se imaginava: uma fachada de democracia em meio a um estado completamente endividado, falido e com os v\u00edcios de autoritarismo e corrup\u00e7\u00e3o refor\u00e7ados pelas mais de duas d\u00e9cadas de ditadura. Por isso, o clima era de imin\u00eancia; falava-se em golpe, em retrocesso; nas escolas e universidades a discuss\u00e3o era Brizola ou Lula para presidente e se, no caso de vit\u00f3ria de um ou de outro, haveria posse.<\/p>\n<p>\u00c9ramos um grupo de amigos dos mais variados interesses, \u00e1vidos por discuss\u00f5es de qualquer esp\u00e9cie, desde que regadas \u00e0 alguma subst\u00e2ncia inebriante, preferencialmente cerveja, cerveja com steinhagen, conhaque ou batida de lim\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu presidia o gr\u00eamio estudantil do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o e esse era no momento um local privilegiado do ponto vista de efervesc\u00eancia. As proximidades da escola eram as preferidas para todo tipo de reuni\u00e3o e eu tinha algumas desconfian\u00e7as de que muito dessa prefer\u00eancia vinha do desfilar constante e desabrochante das normalistas e seus uniformes fetichais. Mas isso era cisma minha, confesso. Integrantes do movimento estudantil de v\u00e1rias escolas da cidade, os trotkistas da Converg\u00eancia Socialista, rockers, punks, grupos de teatro, m\u00fasicos e malucos em geral, o Instituto parecia ter um \u00edm\u00e3 para atrair energia ebulitiva \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Era uma tarde invernal e ventava.<\/p>\n<p>Havia um hor\u00e1rio em que as meninas que andavam com a gente ainda estavam estudando e essa era a nossa deixa para p\u00f4r em dia alguns dos assuntos, digamos, de homem. Da\u00ed paramos no bar rotineiro para acertar os ponteiros das a\u00e7\u00f5es agitativas e fazer as resenhas do dia, trocar expectativas e falar dos in\u00fameros tr\u00eas assuntos de sempre: m\u00fasica, mulheres e pol\u00edtica \u2013 a ordem nem sempre essa.<\/p>\n<p>Foi quando reparamos que do r\u00e1dio sa\u00eda outra m\u00fasica do Raul Seixas\u2026 Estranho\u2026 Havia acabado de tocar Guita e a r\u00e1dio era dessas que odi\u00e1vamos ent\u00e3o. Qual surpresa n\u00e3o foi ouvir mais uma\u2026 Tr\u00eas m\u00fasicas seguidas.<br \/>\nRaul Seixas era um dos nossos mitos vivos mais caros. Um her\u00f3i, um representante visceral de nosso v\u00f4mito a toda porcalhada que nos cercava. Vivia off-m\u00eddia, em total decad\u00eancia, zombeteiro e contradit\u00f3rio. Po\u00e9tica cortante, c\u00ednica e rebelde, plunct-plact-zum zumbizando como uma mosca na sopa da babaquice. Tirando a dupla com Marcelo Nova, ex-Camisa de V\u00eanus, Raul definhava, mal e debilmente aparecendo em p\u00fablico sempre em estado de constrangimento midi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Ao fim da terceira m\u00fasica, a explica\u00e7\u00e3o para tal fen\u00f4meno radiof\u00f4nico nos bateu como uma bomba: Raul tinha morrido! Puta-que-o-pariu! Raul morto! Absortos, desligados, n\u00e3o t\u00ednhamos tomado conhecimento dessa fat\u00eddica not\u00edcia.Um sil\u00eancio nos abateu sem d\u00f3. Um misto de revolta, dor, tristeza e sei-l\u00e1-o-qu\u00ea. Eles venceram de novo. V\u00e3o pro caralho \u2013 pau no cu!<\/p>\n<p>Come\u00e7amos ali mesmo o que seria o resto daquele dia: beber at\u00e9 cair, cantar as m\u00fasicas de nosso \u00eddolo e vagar por nossa cidade de merda e sua rotina med\u00edocre.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas, em algum bar perdido, depois de v\u00e1rias cervejas e afins, a noite adiantada, reparamos que as r\u00e1dios, mesmo as odiadas, n\u00e3o paravam de tocar m\u00fasicas do Raul.Em um desses momentos foi que as coisas se deram. Nos entreolhamos e, sem que combin\u00e1ssemos, decidimos fazer alguma coisa \u00e0 altura de nosso her\u00f3i. Como forma de gratid\u00e3o teria que ser algo nobre, espiritualmente sacana e que fizesse jus a seu legado.<\/p>\n<p>Da\u00ed veio um pensamento l\u00f3gico, arrebatador: se a m\u00fasica de Raul est\u00e1 tocando tanto nesse dia, em tantas r\u00e1dios diferentes, em tantos canais de televis\u00e3o diferentes, imagina quando\u2026 Meus Deus, imagina quando\u2026 Quando\u2026<\/p>\n<p>Foi nesse dia, na cidade de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, agosto de 89, que foi fundada por cinco loucos adolescentes uma organiza\u00e7\u00e3o que durante anos viveria em trabalho espiritual vital, secreto e constante, zelando por nobil\u00edssima causa.<\/p>\n<p>Esse foi o dia da cria\u00e7\u00e3o da Corrente M\u00edstica Fraterna Ultra-Secreta Vida Longa a Roberto Carlos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Raul-Seixas1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Raul-Seixas\" src=\"http:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Raul-Seixas1.jpg\" alt=\"Raul-Seixas\" width=\"200\" height=\"200\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Roberto-Carlos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Roberto-Carlos\" src=\"http:\/\/lurdinha.org\/site\/wp-content\/uploads\/Roberto-Carlos.jpg\" alt=\"Roberto-Carlos\" width=\"200\" height=\"197\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coisa que sempre fascinou a Humanidade ao longo dos s\u00e9culos foi a exist\u00eancia de sociedades secretas, dessas sobre as quais se formam todo um conjunto de m\u00edtica e atra\u00e7\u00e3o. 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