{"id":308,"date":"2015-06-24T06:04:17","date_gmt":"2015-06-24T06:04:17","guid":{"rendered":"http:\/\/relinkare.org\/site\/?p=308"},"modified":"2021-04-15T00:38:49","modified_gmt":"2021-04-15T00:38:49","slug":"308","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/relinkare.org\/site\/308\/","title":{"rendered":"Dona Eneide e a generosidade"},"content":{"rendered":"<p>Por conta do meu trabalho, nos \u00faltimos anos tenho participado de palestras, rodas de conversa e debates por a\u00ed e voltemeia me vejo falando de generosidade, uma marca que identifico muito forte quando tento compreender as contribui\u00e7\u00f5es que as camadas populares desse pa\u00eds t\u00eam dado ao longo dos s\u00e9culos pra nossa hist\u00f3ria. Todas as inven\u00e7\u00f5es, comidas, cultura, m\u00fasica, dan\u00e7as, receitas, engenhocas, insights de conhecimento que s\u00e3o aquilo que pelo qual o Brasil se destaca no mundo. Legado que \u00e9 historicamente privatizado e vendido por segmentos de uma elite econ\u00f4mica que \u00e9 altamente racista e patrimonialista.<\/p>\n<p>Tudo bem que pode parecer de um esquematismo barato, mas \u00e9 por a\u00ed mesmo minha percep\u00e7\u00e3o: h\u00e1 uma generosidade no pov\u00e3o que \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o mesmo, uma riqueza imensa dessa na\u00e7\u00e3o linda e cruel, desse pa\u00eds continental, tropical e violento.<\/p>\n<p>E nesses dias pessoalmente dif\u00edceis \u00e9 que me dei conta de que generosidade era uma caracter\u00edstica muito presente na vida da pessoa de Dona Eneide e essa percep\u00e7\u00e3o sempre esteve presente em minha vida por conta da conviv\u00eancia com essa figura, mesmo que s\u00f3 intuitivamente eu tenha percebido ao longo dos anos. Hoje est\u00e1 claro.<\/p>\n<p>Lembro de que ainda moleque ficava intrigado quando ela dizia estar triste quando chovia nos finais de semana, principalmentes feriados emendados. Certa feita ainda menino cheguei a perguntar o porqu\u00ea disso, uma vez que ela nunca ia \u00e0 praia, por exemplo. E lembro dela falando que sentia por tanta gente que trabalhava tanto durante a semana e que merecia curtir ao menos uma praia pra descontrair&#8230; Essa conversa ficou muito marcada em minha mente a vida inteira e ilustra bem o sentimento de generosidade que corria ali naquela figura.<\/p>\n<p>Ou o curioso mist\u00e9rio do fato de que nossa casa era praticamente uma esp\u00e9cie de entreposto de roupas usadas&#8230; Sem nunca ter tido liga\u00e7\u00e3o alguma com associa\u00e7\u00f5es, partidos, igrejas, ela conseguia fazer com que muita gente deixasse roupas pra doa\u00e7\u00e3o l\u00e1 em casa, principalmente roupas de crian\u00e7a, junto com retalhos e demais materiais do seu of\u00edcio de costureira. A movimenta\u00e7\u00e3o de roupas sempre era intensa e isso durou anos.<\/p>\n<p>Ou ainda o fato de que, mesmo com uma vida de apertos financeiros brabos, ela sempre vivia ajudando pessoas em situa\u00e7\u00e3o de dificuldade. Como isso acontecia? Imposs\u00edvel explicar. S\u00f3 mesmo sintonizando com a tal generosidade.<\/p>\n<p>Outra lembran\u00e7a legal foi a ideia de costurar n\u00famero nas camisas do Flamengo que a maioria de n\u00f3s moleques do bairro tinham e que vinham da loja sem n\u00famero. Ela pegava retalhos brancos e ia dando vida ao sonhos dos Zicos, Titas, Nunes e Ad\u00edlios da Chacrinha. Depois de adulto \u00e9 que fui entender como isso era incr\u00edvel praqueles moleques e molecas, quase todos negros, quase todos de fam\u00edlias nordestinas, quase todos com a figura do pai ausente, criados entre a escola e a rua, naquele lugar sem estrutura urbana nenhuma, estigmatizado, reduto de matadores aliados a policiais, abandonado pelo poder p\u00fablico, debaixo de uma ditadura militar. Mas, nossas camisas tinham n\u00famero e era Dona Eneide quem costurava.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m cresci com uma desconfian\u00e7a, um consider\u00e1vel p\u00e9 atr\u00e1s com \u201cpublicidade de caridade\u201d, certamente por conta de dona Eneide. Isso porque nunca vi em nenhum momento ela se valer dessa sua caracter\u00edstica de car\u00e1ter pra poder se vangloriar disso.<\/p>\n<p>E esse desprendimento era uma marca forte tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Desprendimento que falando assim chega \u00e0s raias do chocante&#8230; Por exemplo, v\u00e1rias vezes que ela sa\u00eda para trabalhar como dom\u00e9stica na Zona Sul do Rio, como v\u00e1rias m\u00e3es de l\u00e1, ela me chamava, eu ainda menino, o mais velho, pra dizer onde o \u201cdinheiro da casa\u201d estava. Era outra frase que sempre repetia: a gente nunca sabe o dia de amanh\u00e3 e a gente sempre tinha que estar preparado para o inesperado. Lembran\u00e7a essa que vem com for\u00e7a grande e enternecedora nessa semana de sua partida desse plano.<\/p>\n<p>\u00c9 como um outro efeito colateral dessa conviv\u00eancia que \u00e9 a dificuldade que tenho com a \u00eanfase em discursos morais\/moralizantes&#8230; Porque ela ensinava \u00e9tica pra gente, s\u00f3 com os exemplos.<\/p>\n<p>Outra: ela n\u00e3o gostava de Natal, dia das m\u00e3es, datas comemorativas de um modo geral. Do jeito dela, Dona Eneide era meio anarco-punk e meio beatnik, de uma esp\u00e9cie de anarquismo potiguara, a etnia ind\u00edgena predominante l\u00e1 em Bel\u00e9m da Para\u00edba, de onde veio com boa parte da fam\u00edlia pra construir vida nova em Caxias e na Mar\u00e9, ali na Baixa do Sapateiro, onde chegamos a morar.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca de crian\u00e7a e na adolesc\u00eancia, nossos amigos adoravam ela por a verem como algu\u00e9m sem frescuras e moralismos, sempre com um sorriso engra\u00e7ado que ela tinha. \u201cP\u00f4, tua m\u00e3e \u00e9 muito maneira\u201d, a gente ouvia sempre. D\u00e9cadas antes de virar pautas de redes sociais, Dona Eneide j\u00e1 defendia os homossexuais, falava contra o preconceito racial e a explora\u00e7\u00e3o financeira. E vivendo isso de verdade.<\/p>\n<p>Praticamente sem estudo, ela tinha uma vis\u00e3o da vida extremamente pr\u00e1tica e gostava de ler curiosidades como as mat\u00e9rias da revista Superinteressante \u2013 ela sabia que o mundo era grande. N\u00e3o se subjugou aos homens, criou cinco filhos, gostava de alegria, de falar sacanagem, de forr\u00f3 de duplo sentido, de zoar, do jeito dela, com os pol\u00edticos, os pastores picaretas e gente metida \u00e0 besta.<\/p>\n<p>Sim, nesses dias me caiu essa ficha de que muito da minha filosofia de vida, minha vis\u00e3o de mundo, eu herdei dessa mulher, uma guerreira paraibana, uma pessoa extremamente musical, uma brasileira dessas como milhares que ergueram no bra\u00e7o, na ternura e na garra, esse pa\u00eds.<\/p>\n<div id=\"attachment_309\" style=\"width: 590px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-309\" class=\"wp-image-309 size-medium\" src=\"http:\/\/relinkare.org\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/DonaEneide-580x435.jpg\" alt=\"Dona Eneide\" width=\"580\" height=\"435\" srcset=\"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/DonaEneide-580x435.jpg 580w, https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/DonaEneide.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><p id=\"caption-attachment-309\" class=\"wp-caption-text\">Tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de para\u00edbas brasileiros<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por conta do meu trabalho, nos \u00faltimos anos tenho participado de palestras, rodas de conversa e debates por a\u00ed e voltemeia me vejo falando de generosidade, uma marca que identifico muito forte quando tento compreender as contribui\u00e7\u00f5es que as camadas&#8230;<br \/><a class=\"read-more-button\" href=\"https:\/\/relinkare.org\/site\/308\/\">Leia mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_kadence_starter_templates_imported_post":false,"footnotes":""},"categories":[20,215,21],"tags":[],"class_list":["post-308","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-foto","category-pitacolandia","category-palavra"],"views":2594,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/308","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=308"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/308\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":313,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/308\/revisions\/313"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}