{"id":237,"date":"2014-06-24T16:35:49","date_gmt":"2014-06-24T16:35:49","guid":{"rendered":"http:\/\/relinkare.org\/site\/?p=237"},"modified":"2014-06-24T16:38:25","modified_gmt":"2014-06-24T16:38:25","slug":"sobre-o-obvio-um-texto-instigante-do-mestre-darcy-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/relinkare.org\/site\/sobre-o-obvio-um-texto-instigante-do-mestre-darcy-ribeiro\/","title":{"rendered":"&#8220;Sobre o \u00d3bvio&#8221; &#8211; um texto instigante do mestre Darcy Ribeiro"},"content":{"rendered":"<p>Nosso tema \u00e9 o \u00f3bvio. Acho mesmo que os cientistas trabalham \u00e9 com o \u00f3bvio. O neg\u00f3cio deles \u2013 nosso neg\u00f3cio \u2013 \u00e9 lidar com o \u00f3bvio. Aparentemente, Deus \u00e9 muito treteiro, faz as coisas de forma t\u00e3o rec\u00f4ndita e disfar\u00e7ada que se precisa desta categoria de gente \u2013 os cientistas \u2013 para ir tirando os v\u00e9us, desvendando, a fim de revelar a obviedade do \u00f3bvio. O ruim deste procedimento \u00e9 que parece um jogo sem fim. De fato, s\u00f3 conseguimos desmascarar uma obviedade para descobrir outras, mais \u00f3bvias ainda.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, antes de entrar na obviedade educacional \u2013 que \u00e9 nosso tema \u2013 vejamos algumas outras obviedades. \u00c9 \u00f3bvio, por exemplo, que todo santo dia o sol nasce, se levanta, d\u00e1 sua volta pelo c\u00e9u, e se p\u00f5e. Sabemos hoje muito bem que isto n\u00e3o \u00e9 verdade. Mas foi preciso muita ast\u00facia e gana para mostrar que a aurora e o crep\u00fasculo s\u00e3o tretas de Deus. N\u00e3o \u00e9 assim? Gera\u00e7\u00f5es de s\u00e1bios passaram por sacrif\u00edcios, recordados por todos, porque disseram que Deus estava nos enganando com aquele espet\u00e1culo di\u00e1rio. Demonstrar que a coisa n\u00e3o era como parecia, al\u00e9m de muito dif\u00edcil, foi penoso, todos sabemos.<\/p>\n<p>Outra obviedade, t\u00e3o \u00f3bvia quanto esta ou mais \u00f3bvia ainda, \u00e9 que os pobres vivem dos ricos. Est\u00e1 na cara? Sem os ricos o que \u00e9 que seria dos pobres? Quem \u00e9 que poderia fazer uma caridade? Me d\u00e1 um empreguinho a\u00ed! Seria imposs\u00edvel arranjar qualquer ajuda. Me d\u00e1 um dinheirinho a\u00ed! Sem rico o mundo estaria incompleto, os pobres estariam perdidos. Mas vieram uns Barbados dizendo que n\u00e3o, e atrapalharam tudo. Tiraram aquela obviedade e puseram outra oposta no lugar. Ali\u00e1s, uma obviedade subversiva.<\/p>\n<p>Uma terceira obviedade que voc\u00eas conhecem bem, por ser patente, \u00e9 que os negros s\u00e3o inferiores aos brancos. Basta olhar! Eles fazem um esfor\u00e7o danado para ganhar a vida, mas n\u00e3o ascendem como a gente. Sua situa\u00e7\u00e3o \u00e9 de uma inferioridade social e cultural t\u00e3o vis\u00edvel, t\u00e3o evidente, que \u00e9 \u00f3bvia. Pois n\u00e3o \u00e9 assim, dizem os cientistas. N\u00e3o \u00e9 assim, n\u00e3o. \u00c9 diferente! Os negros foram inferiorizados. Foram e continuam sendo postos nessa posi\u00e7\u00e3o de inferioridade por tais e quais raz\u00f5es hist\u00f3ricas. Raz\u00f5es que nada t\u00eam a ver com suas capacidades e aptid\u00f5es inatas mas, sim, tendo que ver com certos interesses muito concretos.<\/p>\n<p>A quarta obviedade, mais dif\u00edcil de admitir \u2013 e eu falei das anteriores para voc\u00eas se acostumarem com a id\u00e9ia \u2013 a quarta obviedade, \u00e9 a obviedade do\u00edda de que n\u00f3s, brasileiros, somos um povo de segunda classe, um povo inferior, chinfrin, vagabundo. Mas t\u00e1 na cara! Basta olhar! Somos 100 anos mais velhos que os estadunidenses, e estamos com meio s\u00e9culo de atraso com rela\u00e7\u00e3o a eles. A verdade, todos sabemos, \u00e9 que a coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica no Norte come\u00e7ou 100 anos depois da nossa, mas eles hoje est\u00e3o muito adiante. N\u00f3s, atr\u00e1s, trotando na hist\u00f3ria, trotando na vida. Um neg\u00f3cio horr\u00edvel, n\u00e3o \u00e9? Durante anos, essa obviedade que foi e continua sendo \u00f3bvia para muita gente nos amargurou. Mas n\u00e3o consegu\u00edamos fugir dela, ainda n\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria ci\u00eancia, por longo tempo, parecia existir somente para sustentar essa obviedade. A Antropologia, minha ci\u00eancia, por exemplo, por demasiado tempo n\u00e3o foi mais do que uma doutrina racista, sobre a superioridade do homem branco, europeu e crist\u00e3o, a destina\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria que pesava sobre seus ombros como um encargo hist\u00f3rico e sagrado. Nem foi menos do que um continuado esfor\u00e7o de erudi\u00e7\u00e3o para comprovar e demonstrar que a mistura racial, a mesti\u00e7agem, conduzida a um produto h\u00edbrido inferior, produzindo uma esp\u00e9cie de gente-mula, atrasada e incapaz de promover o progresso. Os antrop\u00f3logos, coitados, por mais de um s\u00e9culo estiveram muito preocupados com isso, e n\u00f3s, brasileiros, comemos e bebemos essas tolices deles durante d\u00e9cadas, como a melhor ci\u00eancia do mundo. O pr\u00f3prio Euclides da Cunha n\u00e3o podia dormir porque dizia que o Brasil ou progredia ou desaparecia, mas perguntava: como progredir, com este povo de segunda classe? Dom Pedro II, imperador dos mulatos brasileiros, sofria demais nas conversas com seu amigo e afilhado Gobineau, embaixador da Fran\u00e7a no Brasil, te\u00f3rico europeu competent\u00edssimo da inferioridade dos pretos e mesti\u00e7os.<\/p>\n<p>O mais grave, por\u00e9m, \u00e9 que al\u00e9m de ser um povo mesti\u00e7o \u2013\u00a0e, portanto, inferior e inapto para o progresso \u2013 n\u00f3s somos tamb\u00e9m um povo tropical. E tropical n\u00e3o d\u00e1! Civiliza\u00e7\u00e3o nos tr\u00f3picos, n\u00e3o d\u00e1! Tropical, \u00e9 demais. Mas isto n\u00e3o \u00e9 tudo. Al\u00e9m de mesti\u00e7os e tropical, outra raz\u00e3o de nossa inferioridade evidente \u2013 demonstrada pelo desempenho hist\u00f3rico med\u00edocre dos brasileiros \u2013 al\u00e9m dessas raz\u00f5es, havia a de sermos cat\u00f3licos, de um catolicismo barroco, n\u00e3o \u00e9? Um neg\u00f3cio atrasado, extravagante, de rezar em latim e confessar em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Pois al\u00e9m disso tudo a nos puxar para tr\u00e1s, havia outras for\u00e7as, ainda piores, entre elas, a nossa ancestralidade portuguesa. Est\u00e3o vendo que falta de sorte? Em lugar de av\u00f3s ingleses, holandeses, gente boa, logo portugueses&#8230; Lusitanos! Est\u00e1 na cara que este pa\u00eds n\u00e3o podia ir para frente, que este povo n\u00e3o prestava mesmo, que esta na\u00e7\u00e3o estava mesmo condenada: mesti\u00e7os, tropicais, cat\u00f3licos e lusitanos \u00e9 dose para elefante.<\/p>\n<p>Bom, estas s\u00e3o as obviedades com que convivemos alegre ou sofridamente por muito tempo. Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, descobrimos meio assombrados \u2013 descoberta que s\u00f3 se generalizou a\u00ed pelos anos 50, mais ou menos \u2013 descobrimos realmente ou come\u00e7amos a atuar como quem sabe, afinal, que aquela \u00f3bvia inferioridade racial inata, clim\u00e1tico-tel\u00farica, asnal-lusitana e cat\u00f3lico-barroca do brasileiro, era como a treta di\u00e1ria do sol que todo dia faz de conta que nasce e se p\u00f5e. Hav\u00edamos descoberto, com mais susto do que alegria, que \u00e0 luz das novas ci\u00eancias, nenhuma daquelas teses se mantinha de p\u00e9. Desde ent\u00e3o, tornando-se imposs\u00edvel, a partir delas, explicar confortavelmente todo o nosso atraso, atribuindo-o ao povo, sa\u00edmos em busca de outros fatores ou culpas que fossem as causas do nosso fraco desempenho neste mundo.<\/p>\n<p>Nesta indaga\u00e7\u00e3o \u2013 vejam como \u00e9 ruim questionar! \u2013 acabamos por dar uma virada prodigiosa na roleta da ci\u00eancia. Ela veio revelar que aquela obviedade de sermos um povo de segunda classe n\u00e3o podia mesmo se manter, porque escondia uma outra obviedade mais \u00f3bvia ainda. Esta nova verdade nos assustou muito, levamos tempo para engolir a novidade. Sobretudo n\u00f3s, bonitos. Falo da descoberta de que a causa real do atraso brasileiro, os culpados de nosso subdesenvolvimento somos n\u00f3s mesmos, ou melhor, a melhor parte de n\u00f3s mesmos: nossa classe dominante e seus comparsas. Descobrimos tamb\u00e9m, com susto, \u00e0 luz dessa nova obviedade, que realmente n\u00e3o h\u00e1 pa\u00eds constru\u00eddo mais racionalmente por uma classe dominante do que o nosso. Nem h\u00e1 sociedade que corresponda t\u00e3o precisado aos interesses de sua classe dominante como o Brasil.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que, desde ent\u00e3o, lamentavelmente, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 como negar dois fatos que ficaram ululantemente \u00f3bvios. Primeiro, que n\u00e3o \u00e9 nas qualidades ou defeitos do povo que est\u00e1 a raz\u00e3o do nosso atraso, mas nas caracter\u00edsticas de nossas classes dominantes, no seu setor dirigente e, inclusive, no seu segmento intelectual. Segundo, que nossa velha classe tem sido altamente capaz na formula\u00e7\u00e3o e na execu\u00e7\u00e3o de projeto de sociedade que melhor corresponde a seus interesses. S\u00f3 que este projeto para ser implantado e mantido precisa de um povo faminto, chucro e feio.<\/p>\n<p>Nunca se viu, em outra parte, ricos t\u00e3o capacitados para gerar e desfrutar riquezas, e para sub-julgar o povo faminto no trabalho, como os nossos senhores empres\u00e1rios, doutores e comandantes. Quase sempre cordiais uns para com os outros, sempre duros e implac\u00e1veis para com subalternos, e insaci\u00e1veis na apropria\u00e7\u00e3o dos frutos do trabalho alheio. Eles tramam e retramam, h\u00e1 s\u00e9culos, a malha estreita dentro da qual cresce, deformado, o povo brasileiro. Deformado e constrangido e atrasado. E assim \u00e9, sabemos agora, porque s\u00f3 assim a velha classe pode manter, sem sobressaltos, este tipo de prosperidade de que ela desfruta, uma prosperidade jamais generaliz\u00e1vel aos que a produzem com o seu trabalho, mas uma prosperidade sempre suficiente para reproduzir, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, a riqueza, a distin\u00e7\u00e3o e a beleza de nossos ricos, suas mulheres e filhos.<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o, \u00e9 que a segunda parte desta minha fala ser\u00e1 o elogio da classe dominante brasileira. O que aspiramos, objetivamente, \u00e9 retrat\u00e1-la aqui em toda a sua alta compet\u00eancia. Mais at\u00e9 do que competente, acho que ela \u00e9 fa\u00e7anhuda, porque fez coisas t\u00e3o admir\u00e1veis e \u00fanicas ao longo dos s\u00e9culo, que merece n\u00e3o apenas nossa admira\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m nosso espanto.<\/p>\n<p>A primeira evid\u00eancia a ressaltar \u00e9 que nossa classe dominante conseguiu estruturar o Brasil como uma sociedade de economia extraordinariamente pr\u00f3spera. Por muito tempo se pensou que \u00e9ramos e somos um pa\u00eds pobre, no passado e agora. Pois n\u00e3o \u00e9 verdade. Esta \u00e9 uma falsa obviedade. \u00c9ramos e somos riqu\u00edssimos! A renda per capita dos escravos de Pernambuco, da Bahia e de Minas Gerais \u2013 eles duravam em m\u00e9dia uns cinco anos no trabalho \u2013 mas a renda per capita dos nossos escravos era, ent\u00e3o, a mais alta do mundo. Nenhum trabalhador, naqueles s\u00e9culos, na Europa ou na \u00c1sia, rendia em libras \u2013 que eram os d\u00f3lares da \u00e9poca \u2013 como um escravo trabalhando num engenho no Recife; ou lavrando ouro em Minas Gerais; ou, depois, um escravo, ou mesmo um imigrante italiano, trabalhando num cafezal em S\u00e3o Paulo. Aqueles empreendimentos foram um sucesso formid\u00e1vel. Geraram al\u00e9m de um PIB prodigioso, uma renda per capita admir\u00e1vel. Ent\u00e3o, como agora, para uso e gozo de nossa s\u00e1bia classe dominante.<\/p>\n<p>A verdade verdadeira \u00e9 que, aqui no Brasil, se inventou um modelo de economia altamente pr\u00f3spera, mas de prosperidade pura. Quer dizer, livre de quaisquer comprometimentos sentimentais. A verdade, repito, \u00e9 que n\u00f3s, brasileiros, inventamos e fundamos um sistema social perfeito para os que est\u00e3o do lado de cima da vida. Sen\u00e3o, vejamos. O valor da exporta\u00e7\u00e3o brasileira no s\u00e9culo XVII foi maior que o da exporta\u00e7\u00e3o inglesa no mesmo per\u00edodo. O produto mais nobre da \u00e9poca era o a\u00e7\u00facar. Depois, o produto mais rendoso do mundo foi o ouro de Minas Gerais que multiplicou v\u00e1rias vezes a quantidade de ouro existente no mundo. Tamb\u00e9m, ent\u00e3o, reinou para os ricos uma prosperidade imensa. O caf\u00e9, por sua vez, foi o produto mais importante do mercado mundial at\u00e9 1913, e n\u00f3s desfrutamos, por longo tempo, o monop\u00f3lio dele. Nestes tr\u00eas casos, que correspondem a conjunturas quase seculares, n\u00f3s tivemos e desfrutamos uma prosperidade enorme. Depois, por algumas d\u00e9cadas, a borracha e o cacau deram tamb\u00e9m surtos invej\u00e1veis de prosperidade que enriqueceram e dignificaram as camadas propriet\u00e1rias e dirigentes de diversas regi\u00f5es. O importante a assinalar \u00e9 que, mod\u00e9stia \u00e0 parte, aqui no Brasil se tinha inventado ou ressuscitado uma economia especial\u00edssima, fundada num sistema de trabalho que, compelindo o povo a produzir, o que ele n\u00e3o consumia \u2013 produzir para exportar \u2013 permitia gerar uma prosperidade n\u00e3o generosa, ainda que propensa desde ent\u00e3o, a uma redistribui\u00e7\u00e3o preterida.<\/p>\n<p>Enquanto isso se fez debaixo dos s\u00f3lidos estatutos da escravid\u00e3o, n\u00e3o houve problema. Depois, por\u00e9m, o povo trabalhador come\u00e7ou a dar trabalho, porque tinha de ser convencido na lei ou na marra, de que seu reino n\u00e3o era para agora, que ele verdadeiramente n\u00e3o podia nem precisava comer hoje. Por\u00e9m o que ele n\u00e3o come hoje, comer\u00e1 acrescido amanh\u00e3. Porque s\u00f3 acumulando agora, sem nada desperdi\u00e7ar comendo, se poder\u00e1 progredir amanh\u00e3 e sempre. O pov\u00e3o, hoje como ontem, sempre andou muito desconfiado de que jamais comer\u00e1 depois de amanh\u00e3 o feij\u00e3o que deixou de comer anteontem. Mas as classes dominantes e seus competentes auxiliares, a\u00ed est\u00e3o para convencer a todos \u2013 com pesquisas, programas e promo\u00e7\u00f5es \u2013 de que o importante \u00e9 exportar, de que \u00e9 indispens\u00e1vel e patri\u00f3tico ter paci\u00eancia, esperem um pouco, n\u00e3o sejam imediatistas. O bolo precisa crescer; sem um bolo maior \u2013 nos dizem o Delfim l\u00e1 de Paris e o daqui \u2013 sem um bolo acrescido, este pa\u00eds estar\u00e1 perdido. \u00c9 preciso um bolo respeit\u00e1vel, \u00e9 indispens\u00e1vel uma poupan\u00e7a ponder\u00e1vel, uma acumula\u00e7\u00e3o milagrosa para que depois se fa\u00e7a, amanh\u00e3, prodigiosamente, a distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bem, esta classe dominante promotora da prosperidade restrita e do progresso contido, realizou verdadeiras fa\u00e7anhas com sua extraordin\u00e1ria habilidade. A primeira foi a pr\u00f3pria Independ\u00eancia do Brasil, que se deu, de fato, antes de qualquer outra na Am\u00e9rica Latina, pois ocorreu no momento em que Napole\u00e3o enxotava a fam\u00edlia real de Portugal. Com ela saem de Lisboa 15.000 f\u00e2mulos. Imaginem s\u00f3 o que representou isto como empreendimento? N\u00e3o falo de epop\u00e9ia de transladar esta multid\u00e3o de gentes para al\u00e9m-mar, \u2013 afinal, mais negros se importava todo ano. Falo da invas\u00e3o do Brasil por 15.000 pessoas das fam\u00edlias nobres de Portugal. Foi como refundar o pa\u00eds, pelo menos o pa\u00eds dominante.<\/p>\n<p>Com eles nos vinha, de gra\u00e7a, toda aquela secular sabedoria pol\u00edtica lusitana de viver e sobreviver ao lado dos espanh\u00f3is, sem conviver nem brigar com eles. Toda aquela sagacidade burocr\u00e1tica, toda aquela cobi\u00e7a senhorial com seu espantoso apetite de enricar e de mandar. Portugal, em sua generosidade, nos legava, na hora do decl\u00ednio, sua nobreza mais nobre. Aquela cujo luxo j\u00e1 est\u00e1vamos habituados a pagar, para ela aqui continuar regendo uma sociedade confort\u00e1vel (!) para si pr\u00f3pria como o fora o velho reino, e at\u00e9 mais pr\u00f3spera.<\/p>\n<p>O resultado imediato desta translada\u00e7\u00e3o da sabedoria classista portuguesa foi a capacidade, prontamente revelada, pela velha classe dominante \u2013 agora nova e nossa \u2013 em epis\u00f3dios fundamentais. Primeiro o de resguardar a unidade nacional que foi o seu grande feito. Tanto mais em rela\u00e7\u00e3o ao que sucedeu \u00e0 Am\u00e9rica Espanhola que, sem-rei-nem-lei se balcanizou rapidamente. O Brasil, que estava tamb\u00e9m dividido em regi\u00f5es e administra\u00e7\u00f5es coloniais igualmente diferenciadas, conseguiu, gra\u00e7as a essa sabedoria, preservar sua unidade para surgir ao mundo com as dimens\u00f5es gigantescas de que tanto nos orgulhamos hoje.<\/p>\n<p>A outra fa\u00e7anha da velha classe, foi sua extraordin\u00e1ria capacidade de enfrentar e vencer todas as revolu\u00e7\u00f5es sociais que se desencadearam no pa\u00eds. Essa efici\u00eancia repressiva lhes permitia esmagar todos os que reclamavam o alargamento das bases da sociedade, para que mais gente participasse do produto do trabalho e, assim, reafirmar e consolidar sua hegemonia. Posteriormente, coroaram tal feito com outro ainda maior, que foi o de escrever a hist\u00f3ria dessas lutas sociais como se elas fossem motins.<\/p>\n<p>Recentemente descobrimos, outra vez assustados \u2013 desta vez gra\u00e7as \u00e0s perquiri\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Hon\u00f3rio \u2013 que o Brasil n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o cordial como quereria o nosso querido S\u00e9rgio. Durante o per\u00edodo das revoltas sociais anteriores e seguintes \u00e0 Independ\u00eancia, morreram no Brasil mais de 50 mil pessoas, inclusive uns sete padres enforcados. O certo \u00e9 que nossos 50 mil mortos s\u00e3o muitos mais mortos do que todos que morreram nas lutas de independ\u00eancia da Am\u00e9rica Espanhola, tidas como das mais cruentas da hist\u00f3ria. Os nossos, por\u00e9m, foram surrupiados da hist\u00f3ria oficial das lutas sociais por serem v\u00edtimas de meros motins, revoltas e levantes e, como tal, n\u00e3o merecem entrar na cr\u00f4nica historiogr\u00e1fica s\u00e9ria da sabedoria classista.<\/p>\n<p>Al\u00e9m destas grandes fa\u00e7anhas, nossa classe dominante acometeu tarefas gigantescas com uma sabedoria crescente, que eu tenho o dever de assinalar nesta louva\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7anha sobremodo admir\u00e1vel, foi a nossa Lei de Terras, aprovada em 1850, quer dizer, 10 anos antes da Am\u00e9rica do Norte estatuir o homestead, que \u00e9 a lei de terras l\u00e1 deles.<\/p>\n<p>A lei brasileira n\u00e3o s\u00f3 foi anterior, como muito mais s\u00e1bia. Sua sagacidade se revela inteira na diferen\u00e7a de conte\u00fado social com respeito \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Norte, bem demonstrativo da capacidade da nossa classe dominante para formular e instituir a racionalidade que mais conv\u00e9m \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de seus altos interesses. A classe dominante brasileira inscreve na Lei de Terras um ju\u00edzo muito simples: a forma normal de obten\u00e7\u00e3o da prioridade \u00e9 a compra. Se voc\u00ea quer ser propriet\u00e1rio, deve comprar suas terras do Estado ou de quem quer que seja, que as possua a t\u00edtulo leg\u00edtimo. Comprar! \u00c9 certo que estabelece generosamente uma exce\u00e7\u00e3o carterial: o chamado usucapi\u00e3o. Se voc\u00ea puder provar, diante do escriv\u00e3o competente, que ocupou continuadamente, por 10 ou 20 anos, um peda\u00e7o de terra, talvez consiga que o cart\u00f3rio o registre como de sua propriedade leg\u00edtima. Como nenhum caboclo vai encontrar esse cart\u00f3rio, quase ningu\u00e9m registrou jamais terra nenhuma por esta via. Em conseq\u00fc\u00eancia, a boa terra n\u00e3o se dispersou e todas as terras alcan\u00e7adas pelas fronteiras da civiliza\u00e7\u00e3o, foram competentemente apropriadas pelos antigos propriet\u00e1rios que, aquinhoados, puderam fazer de seus filhos e netos outros tantos fazendeiros latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p>Foi assim, brilhantemente, que a nossa classe dominante conseguiu duas coisas b\u00e1sicas: se assegurou a propriedade monopol\u00edstica da terra para suas empresas agr\u00e1rias, e assegurou que a popula\u00e7\u00e3o trabalharia docilmente para ela, porque s\u00f3 podia sair de uma fazenda para cair em outra fazenda igual, uma vez que em lugar nenhum conseguiria terras para ocupar e fazer suas pelo trabalho.<\/p>\n<p>A classe dominante norte-americana, menos previdente e qui\u00e7\u00e1 mais ing\u00eanua, estabeleceu que a forma normal de obten\u00e7\u00e3o de propriedade rural era a posse e a ocupa\u00e7\u00e3o das terras por quem fosse para o Oeste \u2013 como se v\u00ea nos filmes de faroeste. Qualquer pioneiro podia demarcar cento e tantos acres e ali se instalar com a fam\u00edlia, porque s\u00f3 o fato de morar e trabalhar a terra fazia propriedade sua. O resultado foi que l\u00e1 multiplicou um imenso sistema de pequenas e m\u00e9dias propriedades que criou e generalizou para milh\u00f5es de modestos granjeiros uma prosperidade geral. Geral mas med\u00edocre, porque trabalhadas por seus pr\u00f3prios donos, sem nenhuma possibilidade de edificar Casas-grandes &amp; Senzalas grandiosas como as nossas. \u00c9 not\u00f3rio que aqui foram melhor preservados os interesses da classe dominante que gra\u00e7as \u00e0 sua previd\u00eancia, p\u00f4de viver e legar com prosperidade e exuber\u00e2ncia. Em conseq\u00fc\u00eancia, os ricos daqui vivem uma vida muito mais rica do que os ricos de l\u00e1, comendo melhor, servidos por uma famulagem mais ampla e carinhosa. Como se v\u00ea, tudo foi feito com muito mais sabedoria, prevendo-se at\u00e9 a inven\u00e7\u00e3o da mucama que nos amamentaria de leite e de ternura.<\/p>\n<p>O alto estilo da classe dominante brasileira s\u00f3 se revela, por\u00e9m, em toda a sua ast\u00facia na quest\u00e3o da escravid\u00e3o. A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial que vinha desabrochando trazia como novidade maior tornar in\u00fatil, obsoleto, o trabalho muscular como fonte energ\u00e9tica. A civiliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o precisava mais se basear no m\u00fasculo de asnos e de homens. Agora tinha o carv\u00e3o, que podia queimar para dar energia, depois viriam a eletricidade e, mais tarde, o petr\u00f3leo. Isso \u00e9 o que a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial deu ao mundo. Mas os senhores brasileiros, sabiamente, ponderaram: &#8211; N\u00e3o! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, com tanto negro \u00e0 toa aqui e na \u00c1frica, podendo trabalhar para n\u00f3s, e assim, ser catequizado e salvo, seria uma maldade troc\u00e1-los por carv\u00e3o e petr\u00f3leo. Dito e feito, o Brasil conseguiu estender tanto o regime escravocrata, que foi o \u00faltimo pa\u00eds do mundo a abolir a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>O mais assinal\u00e1vel, por\u00e9m, como demonstra\u00e7\u00e3o de agudeza senhorial, \u00e9 que ao extingui-la, o fizemos mais sabiamente que qualquer outro pa\u00eds. Primeiro, libertamos os donos da onerosa obriga\u00e7\u00e3o de alimentar os filhos dos escravos que seriam livres. Hoje festejamos este feito com a Lei do Ventre-Livre. Depois, libertamos os mesmos donos do encargo in\u00fatil de sustentar os negros velhos que sobreviveram ao desgaste no trabalho, comemorando tamb\u00e9m este feito como uma conquista libert\u00e1ria. Como se v\u00ea, estamos diante de uma classe dirigente armada de uma sabedoria atroz.<\/p>\n<p>Com a pr\u00f3pria industrializa\u00e7\u00e3o, no passado e no presente, conseguimos fazer treta. Nisto parecemos deuses gregos. A treta, no caso, consistiu em subverter sua propens\u00e3o natural, para n\u00e3o desnaturar a sociedade que a acolhia. A industrializa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 sabidamente um processo de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade de car\u00e1ter libert\u00e1rio, entre n\u00f3s se converteu num mecanismo de recoloniza\u00e7\u00e3o. Primeiro, com as empresas inglesas, depois com as yankees e, finalmente, com as ditas multinacionais. O certo \u00e9 que o processo de industrializa\u00e7\u00e3o \u00e0 brasileira consistiu em transformar a classe dominante nacional de uma representa\u00e7\u00e3o colonial aqui sediada, numa classe dominante gerencial, cuja fun\u00e7\u00e3o agora \u00e9 recolonizar pa\u00eds, atrav\u00e9s das multinacionais. Isto \u00e9 tamb\u00e9m uma fa\u00e7anha formid\u00e1vel, que se est\u00e1 levando a cabo enorme eleg\u00e2ncia e extraordin\u00e1ria efic\u00e1cia.<\/p>\n<p>A efic\u00e1cia total, entretanto, efic\u00e1cia diante da qual devemos nos declinar \u2013 aquela que \u00e9 realmente o grande feito que n\u00f3s, brasileiros, podemos ostentar diante do mundo como \u00fanico \u2013 \u00e9 a fa\u00e7anha educacional da nossa classe dominante. Esta \u00e9 realmente extraordin\u00e1ria! E por isto \u00e9 que eu n\u00e3o concordo com aqueles que, olhando a educa\u00e7\u00e3o desde outra perspectiva, falam de fracasso brasileiro no esfor\u00e7o por universalizar o ensino. Eu acho que n\u00e3o houve fracasso algum nesta mat\u00e9ria, mesmo porque o principal requisito de sobreviv\u00eancia e de hegemonia da classe dominante que temos era precisamente manter o povo chucro. Um povo chucro, neste mundo que generaliza tonta e alegremente a educa\u00e7\u00e3o, \u00e9, sem d\u00favida, fenomenal. Mantido ignorante, ele n\u00e3o estar\u00e1 capacitado a eleger seus dirigentes com riscos inadmiss\u00edveis de populismo demag\u00f3gico. Perpetua-se, em conseq\u00fc\u00eancia, a s\u00e1bia tutela que a elite educada, ilustrada, elegante, bonita, exerce paternalmente sobre as massas ignoradas. Tutela cada vez mais necess\u00e1ria porque, com o progresso das comunica\u00e7\u00f5es, aumentam dia-a-dia os riscos do nosso povo se ver atra\u00eddo ao engodo comunista ou fascista, ou trabalhista, ou sindical, ou outro. Assim se v\u00ea o equ\u00edvoco em que recai quem trata como fracasso do Brasil em educar seu povo o que de fato foi uma fa\u00e7anha. Pedro II, por exemplo, nosso preclaro imperador, nunca se equivocou a respeito. Nos dias que a Argentina, o Chile e o Uruguai generalizavam a educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria dentro do esp\u00edrito de formar cidad\u00e3os para edificar a na\u00e7\u00e3o, naquelas eras, nosso s\u00e1bio Pedro criava duas \u00fanicas institui\u00e7\u00f5es educacionais: o Instituto de Surdos e Mudos, e o Instituto Imperial dos Cegos. Ali\u00e1s, diga-se de passagem, o segundo deles, mais tarde, por m\u00e3os de outro Pedro mon\u00e1rquico &#8211; o Calmon &#8211; passou a servir de sede &#8211; \u00e9 um edif\u00edcio muito bonito &#8211; \u00e0 reitoria da ent\u00e3o chamada Universidade do Brasil. Antes tiraram os cegos de l\u00e1, naturalmente.<\/p>\n<p>Duas s\u00e3o as vias hist\u00f3ricas de populariza\u00e7\u00e3o do ensino elementar. Primeiro, a luterana, que se d\u00e1 com a convers\u00e3o da leitura da B\u00edblia no supremo ato de f\u00e9. Disto resulta um tipo de educa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria em que cada popula\u00e7\u00e3o local, municipal, trabalhada pela Reforma, faz da igreja sua escola e ensina ali a rezar, ou seja, a ler. Esta \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o que generalizou na Alemanha e, mais tarde, nos Estados Unidos, como educa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A outra forma de generaliza\u00e7\u00e3o do ensino prim\u00e1rio foi a c\u00edvica, napole\u00f4nica, promovida pelo Estado, fruto da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, que se disp\u00f4s a alfabetizar os franceses para deles fazer cidad\u00e3os. Aqueles franceses todos, divididos em bret\u00f5es, flamengos, occipit\u00e3es, etc., aquela quantidade de gente provinciana, falando dialetos atravancados, n\u00e3o agradava a Napole\u00e3o. Ele inventou, ent\u00e3o, esta coisa formidavelmente simples, que \u00e9 a escola p\u00fablica regida por uma professorinha prim\u00e1ria, preparada num internato, para a tarefa de formar cidad\u00e3os. Foi ela, com o giz e o quadro-negro, que desasnou os franceses, e desasnando, os faz cidad\u00e3os, ao mesmo tempo em que generalizava a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, temos duas formas b\u00e1sicas de promover a educa\u00e7\u00e3o popular: uma, religiosa, que \u00e9 comunit\u00e1ria, municipal; outra, c\u00edvica, que \u00e9 estatal e, em conseq\u00fc\u00eancia, federal. O Brasil, com os dois pedros imperiais, e todos os presidentes civis e todos os governantes militares e que os sucederam de ent\u00e3o at\u00e9 hoje, apesar de cat\u00f3lico, adota forma comunit\u00e1ria luterana. Ou seja, entrega a educa\u00e7\u00e3o fundamental exatamente aos menos interessados em educar o povo, ao governo municipal e ao estadual.<\/p>\n<p>Pois bem, prestem aten\u00e7\u00e3o, e se edifiquem com a sabedoria que os nossos maiores revelam neste passo: ao entregar a educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria exatamente \u00e0queles que n\u00e3o queriam educar ningu\u00e9m \u2013 porque achavam uma inutilidade ensinar o povo a ler, escrever e contar \u2013 ao entregar exatamente a eles \u2013 ao prefeito e ao governador \u2013 a tarefa de generalizar a educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, a condenavam ao fracasso, tudo isso sem admitir, jamais, que seu imposto era precisamente este.<\/p>\n<p>O professor Oracy Nogueira nos conta que a nobre vila de Itapetininga, ilustre cidade de S\u00e3o Paulo, em meados do s\u00e9culo passado, fez um pedido veemente a Pedro Dois: queria uma escola de primeiras letras. E a queria com fervor, porque ali \u2013 argumentava \u2013 havia v\u00e1rios homens bons, paulistas de quatro e at\u00e9 de quarenta costados, e nenhum deles podia servir na C\u00e2mara Municipal, porque n\u00e3o sabiam assinar o nome. Queria uma escola de alfabetiza\u00e7\u00e3o para fazer vereador, n\u00e3o uma escola para ensinar todo o povo a ler, escrever e contar. Vejam a diferen\u00e7a que h\u00e1 entre a nossa orienta\u00e7\u00e3o educacional e as outras tradi\u00e7\u00f5es. Aqui, sabiamente, uma vila quer e pede escola, mas n\u00e3o quer rezar, nem democratizar, o que deseja \u00e9 formar a sua lideran\u00e7a pol\u00edtica, \u00e9 capacitar a sua classe dominante sem nenhuma id\u00e9ia de generalizar a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o admirar a classe desta nossa velha classe que no caso da terra, adota uma solu\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 granjeira norte-americana; e no caso da educa\u00e7\u00e3o, adota exatamente a solu\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria yankee&#8230; Varia nos dois casos para n\u00e3o variar. Isto \u00e9, para continuar atendendo aos seus dois interesses cruciais: a apropria\u00e7\u00e3o latifundi\u00e1ria da terra e a santa ignor\u00e2ncia popular.<\/p>\n<p>Mas a amplitude de crit\u00e9rios n\u00e3o p\u00e1ra a\u00ed, visto que para o ensino superior se fez o contr\u00e1rio. A escola superior, e n\u00e3o a prim\u00e1ria, \u00e9 que foi estruturada no Brasil segundo uma orienta\u00e7\u00e3o napole\u00f4nica. Como os franceses, criamos uma universidade que n\u00e3o era universidade, mas um conglomerado de escolas aut\u00e1rquicas. Napole\u00e3o precisou fazer isto, talvez, para liquidar a vetustez da universidade medieval, porque ela estava dominada, contaminada, impregnada da teologia de ent\u00e3o. Era preciso romper aquele quadro medieval para progredir. Para isto, a burguesia criou as grandes escolas nacionais, formadoras de profissionais, advogados, m\u00e9dicos, engenheiros, ass\u00e9pticos de qualquer teologismo.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o tinha tido uma universidade. Come\u00e7a pelas grandes escolas. Recorde-se que as dezenas de universidades do mundo hispano-americano foram criadas a partir de 1.550, formando (?). No Brasil, quem tinha dinheiro para educar o filho em n\u00edvel superior, mandava-o para Coimbra. Como eram poucos os abastados, em todo o per\u00edodo colonial, apenas conseguimos formar uns 2.800 bachar\u00e9is e m\u00e9dicos. Isto significa que, por ocasi\u00e3o da Independ\u00eancia, devia haver, se tanto, uns 2.000 brasileiros com forma\u00e7\u00e3o superior, aspirando a cargos e mordomias. Havia, por conseq\u00fc\u00eancia, um vasto lugar para aqueles 15.000 f\u00e2mulos reais que ca\u00edram sobre o Rio de Janeiro, a Bahia e o Recife, convertendo-se, rapidamente, no setor hegem\u00f4nico da classe dominante, classe dirigente, do pa\u00eds, logo aquinhoada com sesmarias latifundi\u00e1rias e vasta escravista.<\/p>\n<p>O Brasil cria as suas primeiras escolas depois do desembarque da Corte. E as cria para formar um famul\u00e1rio local. Mas as organiza segundo o modelo napole\u00f4nico, federal e n\u00e3o municipalmente. Elas nascem como cria\u00e7\u00f5es do governo central, estruturadas em escolas superiores aut\u00e1rquicas que n\u00e3o queriam ser aglutinadas em universidades. Nossa primeira universidade, s\u00f3 em 1.923. E se cria por decreto, por uma raz\u00e3o muito importante, ainda que extra-educacional: o rei da B\u00e9lgica visitava o Brasil, e o Itamarati devia dar a ele o t\u00edtulo de Doutor Honoris Causa. N\u00e3o podendo honrar ao reizinho como o protocolo recomendava, porque n\u00e3o t\u00ednhamos uma universidade, criou-se para isto a Universidade do Brasil. Assim, Leopoldo se fez doutor aqui tamb\u00e9m. Assim foi criada a primeira universidade brasileira. Uma universidade que, desde ent\u00e3o, se vem estruturando e desestruturando, como se sabe.<\/p>\n<p>Mas o modelo se multiplicou prodigiosamente como os peixes do Senhor. Hoje contamos com mais centena de universidade e milhares de cursos superiores onde j\u00e1 estuda mais de um milh\u00e3o de jovens. S\u00e3o tantos, que j\u00e1 h\u00e1 quem diga que nossas universidades enfrentam uma verdadeira crise de crescimento, asseverando mesmo que seu problema decorre de haver matriculado gente demais. Teriam elas crescido com tanta demasia que, agora, n\u00e3o podendo digerir o que t\u00eam na barriga, jib\u00f3iam. Eu acho que o conceito de crise-de-crescimento n\u00e3o expressa bem o fen\u00f4meno. Nosso caso \u00e9 outro. O que ocorre com a universidade no Brasil \u00e9 mais ou menos o que sucederia com uma vaca se, quando bezerra, ela fosse encerrada numa jaula pequenina. A vaca mesmo est\u00e1 crescendo naturalmente, mas a jaula de ferro a\u00ed est\u00e1, contendo, constringindo. Ent\u00e3o o que cresce \u00e9 um bicho raro, estranho. Este bicho nunca visto \u00e9 o produto, \u00e9 o fruto, \u00e9 a flor acad\u00eamica dessa classe dominante s\u00e1bia, preclara, admir\u00e1vel que temos, que nos serve e a que servimos patrioticamente contritos. Cremos haver demonstrado at\u00e9 aqui que no campo da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 que melhor se concretiza a sabedoria das nossas classes dominantes e sua extraordin\u00e1ria ast\u00facia na defesa de seus interesses. De fato, uma minoria t\u00e3o insignificante e t\u00e3o claramente voltada contra os interesses da maioria, s\u00f3 pode sobreviver e prosperar contando com enorme sagacidade, enorme sabedoria, que \u00e9 preciso compreender e proclamar.<\/p>\n<p>Sua \u00faltima fa\u00e7anha neste terreno, sobre a qual, ali\u00e1s muito se comenta \u2013 \u00e0s vezes, at\u00e9 de forma negativa \u2013 foi a mobraliza\u00e7\u00e3o da nossa educa\u00e7\u00e3o elementar. A nosso ver, o MOBRAL \u00e9 uma obra maravilhosa de previd\u00eancia e sabedoria. Com efeito, \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o perfeita. Quem se ocupe em pensar um minuto que seja sobre o tema, ver\u00e1 que \u00e9 \u00f3bvio que quem acaba com o analfabetismo adulto \u00e9 a morte. Esta \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o natural. N\u00e3o se precisa matar ningu\u00e9m, n\u00e3o se assustem! Quem mata \u00e9 a pr\u00f3pria vida, que traz em si o germe da morte. Todos sabem que a maior parte dos analfabetos est\u00e1 concentrada nas camadas mais velhas e mais pobres da popula\u00e7\u00e3o. Sabe-se, tamb\u00e9m, que esse pessoal vive pouco, porque come pouco. Sendo assim, basta esperar alguns anos e se acaba com o analfabetismo. Mas s\u00f3 se acaba com a condi\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se produzem novos analfabetos. Para tanto, tem-se que dar prioridade total, federal, \u00e0 n\u00e3o-produ\u00e7\u00e3o de analfabetos. Pegar, ca\u00e7ar (com e cedilha) todos os meninos de sete anos para matricular na escola prim\u00e1ria, aos cuidados de professores capazes e devotados, a fim de n\u00e3o mais produzir analfabetos. Por\u00e9m, se se escolarizasse a crian\u00e7ada toda, e se o sistema continuasse matando os velhinhos analfabetos com que contamos, a\u00ed pelo ano 2.000 n\u00e3o ter\u00edamos mais um s\u00f3 analfabeto. Percebem agora onde est\u00e1 o n\u00f3 da quest\u00e3o?<\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao MOBRAL estamos salvos! Sem ele a classe dominante estaria talvez perdida. Imagine-se o ano 2.000, sem analfabetos no Brasil! Seria um absurdo! N\u00e3o, gra\u00e7as \u00e0 previd\u00eancia de criar para alfabetizar um \u00f3rg\u00e3o que n\u00e3o alfabetiza, de n\u00e3o gastar os escassos recursos destinados \u00e0 educa\u00e7\u00e3o onde se deveria gastar, de n\u00e3o investir onde se deveria investir \u2013 se o prop\u00f3sito fosse generalizar a educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u2013 podemos contar com a garantia plena de que manteremos crescente o n\u00famero absoluto de analfabetos de nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m edificante, no caso do MOBRAL, \u00e9 ele se haver convertido numa das maiores editoras do mundo. Com efeito, a tiragem de suas edi\u00e7\u00f5es se conta por centenas de milh\u00f5es. \u00c9 espantoso, mas verdadeiro: neste nosso Brasil, se n\u00e3o s\u00e3o os analfabetos os que mais l\u00eaem, \u00e9 a eles que se destina a maior parte dos livros, folhetins, livrinhos coloridos que se publica oficialmente, maravilhoso, em quantidades astron\u00f4micas. Pode-se mesmo afirmar que o maior empreendimento eleitoral \u2013 eleitoral, n\u00e3o editorial \u2013 do pa\u00eds \u00e9 o MOBRAL, como institui\u00e7\u00e3o educativa e como co-editora.<\/p>\n<p>Naturalmente que h\u00e1 nisto implica\u00e7\u00f5es. Uma delas, a originalidade ou o contraste que faremos no ano 2.000. Ent\u00e3o, todas as na\u00e7\u00f5es organizadas para si mesmas e que vivem como sociedades aut\u00f4nomas, estar\u00e3o levando a quase totalidade da sua juventude \u00e0s escolas de n\u00edvel superior. Neste momento, nos estados Unidos, mais de 70% dos jovens j\u00e1 est\u00e3o ingressando nos cursos universit\u00e1rios. Cuba, mesmo, \u2013 os cubanos s\u00e3o muito pretenciosos \u2013 est\u00e1 prometendo matricular toda a sua juventude nas universidades. Primeiro, eles tentaram generalizar o ensino prim\u00e1rio. Conseguiram. Generalizaram, depois, o secund\u00e1rio. Agora, amea\u00e7am universalizar o superior. Parece que j\u00e1 no pr\u00f3ximo ano todos os jovens que terminam os seis anos de secund\u00e1rio entrar\u00e3o para a universidade. \u00c9 claro para isso, a universidade teve de ser totalmente transformada. Desenclaustrada.<\/p>\n<p>Meditem um pouco sobre este tema e imaginem o efeito tur\u00edstico que ter\u00e1, num mundo em que todos tenham feito curso superior, um Brasil com milh\u00f5es de analfabetos&#8230; Pode ser um neg\u00f3cio muito interessante, n\u00e3o \u00e9? Sobretudo se eles continuarem com essas caras tristonhas que tem, com esse ar subnutrito que exibem e que n\u00e3o existir\u00e1 mais neste mundo. O Brasil poder\u00e1 ent\u00e3o ser de fato, o pa\u00eds do turismo, o \u00fanico lugar do mundo onde se poder\u00e1 ver coisas assim, de outros tempos, coisas raras, fenomenais, extravagantes. Em conseq\u00fc\u00eancia, a crise educacional do Brasil da qual tanto se fala, n\u00e3o \u00e9 uma crise, \u00e9 um programa. Um programa em curso, cujos frutos, amanh\u00e3, falar\u00e3o por si mesmos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nosso tema \u00e9 o \u00f3bvio. Acho mesmo que os cientistas trabalham \u00e9 com o \u00f3bvio. O neg\u00f3cio deles \u2013 nosso neg\u00f3cio \u2013 \u00e9 lidar com o \u00f3bvio. 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