{"id":1279,"date":"2024-11-22T04:13:30","date_gmt":"2024-11-22T04:13:30","guid":{"rendered":"https:\/\/relinkare.org\/site\/?p=1279"},"modified":"2026-01-22T17:19:30","modified_gmt":"2026-01-22T17:19:30","slug":"aquele-rubro-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/relinkare.org\/site\/aquele-rubro-natal\/","title":{"rendered":"Aquele Rubro Natal"},"content":{"rendered":"\n<p>Samuel Machado ajeitou pela terceira vez a guirlanda na porta de entrada. Tinha trabalhado na reparti\u00e7\u00e3o o m\u00eas inteiro esperando este momento. Sorriu ao imaginar o rostinho do neto Junior se iluminando ao ver a decora\u00e7\u00e3o natalina que havia espalhado pela casa, sentimento terno que o fazia bem. Deu uma andada pela casa, orgulhoso de sua decora\u00e7\u00e3o feita de forma totalmente solit\u00e1ria e gostou do resultado. Ao sentar na grande poltrona de sua sala teve de novo um sorriso incontido no rosto, desta vez com toques sarc\u00e1sticos, ao pensar que o Natal era \u00fanica vez no ano em que o vermelho, essa cor maldita, dominava seu cotidiano pr\u00f3ximo e inundava sua casa. \u201cPapai Noel, seu velho comunista safado\u201d, pensou.<br>E era isso: depois de seis anos de distanciamento, seu filho Sandro finalmente voltaria ao lar \u2013 mesmo que por insist\u00eancia sua e alguma, na verdade muita, relut\u00e2ncia do filho. Samuel sentia dentro do peito uma alegria que era como um tambor batucando, um motor ronronando de leve, um foguinho aceso que trazia um pouco de alento e felicidade que n\u00e3o sentia h\u00e1 anos, principalmente depois que ficara vi\u00favo e passara a viver s\u00f3, casa trabalho trabalho casa.<br>O rel\u00f3gio marcava 15h30min do dia 24 de dezembro de 2022. Ainda tinha tempo de verificar se o peru estava descongelando adequadamente antes de sair para o aeroporto. Na geladeira, a sobremesa preferida de Sandro j\u00e1 estava pronta: pudim de leite, receita especial da falecida esposa. Um pequeno gesto de paz, um aceno, golpe certeiro para coroar esse poss\u00edvel reatamento que tanto bem j\u00e1 estava fazendo em sua vida.<br>Enquanto dirigia para o Aeroporto Internacional de Bras\u00edlia, recordava as discuss\u00f5es acaloradas que teve com o filho; discuss\u00f5es que vinham de muito tempo, mas que se intensificaram muito em determinado momento. Pol\u00edtica: a palavra que havia criado um abismo entre eles. Como deixara que ideologias fossem mais importantes que o amor? Como as coisas chegaram a este ponto? N\u00e3o sabia responder.<br>Gra\u00e7as a Marta, sua nora, e principalmente ao pequeno Junior, as feridas come\u00e7avam a cicatrizar, o orgulho amainava. Os \u00faltimos meses de conversas por videochamada haviam devolvido cor \u00e0 sua vida solit\u00e1ria e o sorriso e as palavras do pequeno neto eram b\u00e1lsamos louvados diariamente.<br>&#8220;Pai, n\u00e3o precisa se incomodar. Estamos sem grana agora. Podemos ir em fevereiro&#8221;, Sandro havia dito. Mas Samuel insistiu, enviou as passagens, planejou cada detalhe. Era sua chance de reconquistar a fam\u00edlia.<br>Era dia de Natal e o famoso c\u00e9u de Bras\u00edlia estava particularmente bonito naquela tarde, com nuvens que pareciam algod\u00e3o tingido pelo sol. Samuel estacionou o carro no local combinado, pegou o cartaz que havia feito com o nome do neto decorado com desenhos de super-her\u00f3is, e caminhou em dire\u00e7\u00e3o ao terminal de desembarque.<br>Foi quando o mundo explodiu.<br>O estrondo foi ensurdecedor. Uma onda de calor o jogou contra a parede. Gritos. Chamas. Corpos. Caos. O cheiro acre de combust\u00edvel queimado invadiu seus pulm\u00f5es. Demorou a conseguir retomar o controle do corpo e da mente. Apavorado, suas m\u00e3os tremiam enquanto tentava, repetidamente, ligar para o n\u00famero de Sandro. Em v\u00e3o.<br>&#8220;Por favor, atende. Atende.&#8221;, murmurava, as l\u00e1grimas escorrendo pelo rosto envelhecido. &#8220;Por favor, filho.&#8221; No entorno, ainda as chamas e o descontrole total.<br>O cartaz colorido jazia no ch\u00e3o, parcialmente queimado. Ao redor, o caos se instalava. Sirenes. Pessoas correndo. Outras im\u00f3veis, em choque como ele. O c\u00e9u antes sereno agora estava coberto por uma espessa fuma\u00e7a escura.<br>As horas seguintes passaram como um pesadelo nebuloso. Samuel recusou-se a sair do aeroporto. Funcion\u00e1rios e policiais tentaram convenc\u00ea-lo, mas ele permaneceu ali, agarrado ao celular mudo, observando equipes de resgate trabalharem incansavelmente.<br>Foi apenas na manh\u00e3 seguinte, sentado em uma cadeira fria na delegacia, que recebeu a confirma\u00e7\u00e3o. O voo 1805 GIG-BSB. Nenhum sobrevivente. Sandro. Marta. Junior. Todos se foram em um instante de fogo e terror.<br>Na televis\u00e3o da delegacia, manchetes sensacionalistas j\u00e1 chamavam o evento de &#8220;Natal Sangrento&#8221;. N\u00fameros frios desfilavam pela tela: mais de trezentos mortos, mais de mil pessoas feridas. Um caminh\u00e3o cheio de querosene de avi\u00e3o, uma bomba, um plano macabro exitoso. Um aeroporto em um dia cheio. Um grupo extremista de direita apontado como autor. Mas para Samuel, os n\u00fameros n\u00e3o importavam. Seu mundo particular havia acabado.<br>De volta \u00e0 sua casa, a guirlanda ainda pendurada parecia zombar dele. O peru descongelado. O pudim na geladeira. Presentes embrulhados debaixo da \u00e1rvore. A culpa o consumia como as chamas haviam consumido sua fam\u00edlia.<br>&#8220;Venham passar o Natal comigo&#8221;, ele havia insistido. &#8220;Fa\u00e7am essa viagem&#8221;, ele havia pedido. &#8220;Eu pago tudo&#8221;, ele havia prometido.<br>Sentado sozinho \u00e0 mesa posta para quatro pessoas, Samuel encarava o lugar vazio onde seu neto deveria estar. Sobre o prato, ainda estava o cartaz de boas-vindas, chamuscado nas bordas \u2013 \u00faltima lembran\u00e7a de um Natal que nunca aconteceu.<br>O sil\u00eancio da casa era um grito desesperado e triste. Mais do que nunca, estava sozinho. E dessa vez, n\u00e3o haveria mais videochamadas para aplacar a solid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>@heraldohb<br>_<br>este \u00e9 um conto de fic\u00e7\u00e3o, mas poderia n\u00e3o ter sido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Samuel Machado ajeitou pela terceira vez a guirlanda na porta de entrada. Tinha trabalhado na reparti\u00e7\u00e3o o m\u00eas inteiro esperando este momento. 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