{"id":1151,"date":"2022-01-22T17:23:01","date_gmt":"2022-01-22T17:23:01","guid":{"rendered":"https:\/\/relinkare.org\/site\/?p=1151"},"modified":"2022-02-04T04:52:23","modified_gmt":"2022-02-04T04:52:23","slug":"a-guisa-dos-cem-anos-de-leonel-brizola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/relinkare.org\/site\/a-guisa-dos-cem-anos-de-leonel-brizola\/","title":{"rendered":"\u00c0 GUISA DOS CEM ANOS DE LEONEL BRIZOLA"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje, 22 de janeiro de 2022, se completam cem anos do nascimento de Leonel de Moura Brizola, um brasileiro dos melhores que j\u00e1 tiveram, um idealista, um homem simples e apaixonado, incendi\u00e1rio, um sujeito incr\u00edvel cuja hist\u00f3ria merece ser reverenciada cada vez mais e escrevo estas linhas resumidas nessa inten\u00e7\u00e3o, em tom pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>Inimigo n\u00famero um da ditadura civil-militar, perseguido implacavelmente pela direita do pa\u00eds, representada pelo Sistema Globo de Comunica\u00e7\u00e3o, Brizola tamb\u00e9m era espetado por v\u00e1rios setores da esquerda, motivo de muita discuss\u00e3o e porradaria, principalmente naqueles anos da mei\u00faca dos oitenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando crian\u00e7a, na Baixada Fluminense, a presen\u00e7a de Brizola era muito forte, registros indel\u00e9veis na alma de quem depois ia emburacar na pol\u00edtica, na comunica\u00e7\u00e3o, nas lutas sociais. Mesmo crian\u00e7a eu sentia for\u00e7a desse nome na cidade, sempre falado com muita paix\u00e3o. Depois, j\u00e1 adolescente \u00e9 que comecei a montar o quebra-cabe\u00e7as e entender aquele momento pol\u00edtico e que essa for\u00e7a do Brizola era de fato uma onda; depois \u00e9 que fui compreender que as pessoas queria votar em Brizola naquela elei\u00e7\u00e3o de 1982 e foi uma tsunami que barrou uma fraude eleitoral sofisticada, o esc\u00e2ndalo da Proconsult, e fez daquele ga\u00facho chegado do ex\u00edlio um governador de realiza\u00e7\u00f5es de grande for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Caso do leite dado na escola p\u00fablica e que fortaleceu o c\u00e1lcio de uma gera\u00e7\u00e3o de pessoas que tinham dificuldade de manter um alimenta\u00e7\u00e3o minimamente saud\u00e1vel. Comi muito mingau feito pela minha m\u00e3e com o leite B dado na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m lembro o encampamento de duas empresas de \u00f4nibus na cidade que nos permitia, crian\u00e7as sem nenhum dinheiro, ter a perspectiva ir at\u00e9 o centro da cidade para ir \u00e0 Biblioteca da C\u00e2mara, para visitar feiras de ci\u00eancia em outras escolas ou mesmo pra zoar, para \u201cver o mundo\u201d. Ali\u00e1s, o medo de mais encampamentos de empresas fazia com que empres\u00e1rios de \u00f4nibus tamb\u00e9m fossem dos mais exaltados contra aquele governador \u201ccomunista.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por muitos motivos, d\u00e1 pra ter uma ideia de que sempre fui um admirador do Brizola, desde pequeno, mas falar isso nos \u00faltimos anos \u00e9 f\u00e1cil, tranquilo. Mas acredite: na minha adolesc\u00eancia isso era uma coisa muito complicada para quem se envolvia com a milit\u00e2ncia daquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p>No Rio de Janeiro, o PDT n\u00e3o tinha na Baixada um trabalho \u00e0 vera com a juventude e n\u00e3o tinha uma presen\u00e7a forte no movimento estudantil. E estando no PT, era dif\u00edcil resistir \u00e0s tend\u00eancias mais \u00e0 esquerda, que naquele momento fascinavam a molecada, como era o caso da Converg\u00eancia Socialista. Majoritariamente, a galera que foi pra pol\u00edtica da mesma idade que eu era quase sempre levada a esse caminho. E Brizola n\u00e3o era nada bem visto nesse segmento. Soa at\u00e9 engra\u00e7ado falar isso agora, mas pra pra mim, essa confiss\u00e3o de admira\u00e7\u00e3o pelo Engenheiro era um supl\u00edcio na \u00e9poca\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de militar no PT e ser l\u00edder do Gr\u00eamio Estudantil da maior escola da Baixada, o Instituto de Educa\u00e7\u00e3o Roberto Silveira, nunca esquecerei as tantas vezes que fui chamado de pelego, pedetista encubado, reformista, prestista (sim, do Prestes!), simplesmente por admitir que sim, eu achava Leonel Brizola um cara fascinante e importante demais pra Hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas apesar dos achincalhes e zoadas eu segui na admira\u00e7\u00e3o do Velho naquele momento e isso se manteve at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Por conta de ra\u00edzes paraibanas e envolvimento desde cedo com a cultura nordestina, por muitas vezes falar de um Brasil popular pra mim sempre foi pensar a partir desse tr\u00f3pico, dessa regi\u00e3o do pa\u00eds e suas imensur\u00e1veis riquezas culturais. Mas com o tempo, e com a contribui\u00e7\u00e3o decisiva de Brizola, fui entendendo que esse Brasil popular tamb\u00e9m \u00e9 viv\u00e3o no Sul e que especialmente o ga\u00facho tem um modo todo pr\u00f3prio de envolvimento com a terra e com a luta contra as injusti\u00e7as. E que tamb\u00e9m o povo de l\u00e1 vive como em todo o pa\u00eds a desgra\u00e7a do latif\u00fandio e da viol\u00eancia do campo, como nos marcou profundamente o filme Terra para Rose, de Tet\u00ea Moares, document\u00e1rio que vi acho que dezenas de vezes ainda moleque.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sobre o campo, uma vez li um texto pessoal de Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile sobre o Velho que ainda colocou outra camada de admira\u00e7\u00e3o em cima do que eu j\u00e1 sentia\/conhecia. No carinhoso texto, St\u00e9dile conta v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es incr\u00edveis dele como governador do Rio Grande, e uma delas era um detalhe marcante e curioso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de material escolar gratuito. Segundo ele, o caderno distribu\u00eddo pelo governo tinha na capa a figura do grande l\u00edder guarani Sep\u00e9 Tiaraj\u00fa, algo que o ajudou a despertar pra luta desde cedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, o MST oficialmente considera Brizola um dos av\u00f4s do movimento, junto com as Ligas Camponesas do Nordeste. Isso porque ele ajudou a criar e incentivou de formas concretas o MASTER, veja s\u00f3, Movimento dos Agricultores Sem Terra, isso l\u00e1 nos anos 1950, quando foi governador do Rio Grande pela primeira vez. A vis\u00e3o reiterada de que a terra \u00e9 a base da soberania de um povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, ainda na adolesc\u00eancia mesmo, eu j\u00e1 estava na rotina capitalista de trabalho\/estudo, trabalhando desde os quatorze anos de office-boy, com carteira assinada e tudo. E a\u00ed minha ida di\u00e1ria ao centro da cidade do Rio era um esbarrar constante com a Brizol\u00e2ndia, algo dif\u00edcil de explicar nos dias de hoje, fen\u00f4meno merecedor de um texto \u00e0 parte em algum momento. Mas d\u00e1 pra dizer resumidamente que a Brizol\u00e2ndia era um enclave pol\u00edtico na Cinel\u00e2ndia que reunia diariamente centenas de pessoas que discutiam pol\u00edtica, militavam, organizavam tarefas, distribu\u00edam material gr\u00e1fico, promoviam eventos, atualizavam fofocas e bastidores do poder, debatiam com os transeuntes, uma ocupa\u00e7\u00e3o p\u00fablica permanente em pleno cora\u00e7\u00e3o pol\u00edtico da cidade que um dia foi capital da rep\u00fablica. Os Cadernos do Terceiro Mundo, por exemplo, foi ali que entrei em contato. Apesar do dem\u00e9rito que muitos tinham por conta das figuras lend\u00e1rias, folcl\u00f3ricas, dos exageros, a Brizol\u00e2ndia foi um fen\u00f4meno marcante do qual nunca encontrei paralelo em lugar nenhum da hist\u00f3ria no pa\u00eds. Em termos de abnega\u00e7\u00e3o a um l\u00edder e seus ideias, talvez a vig\u00edlia Lula Livre, em Curitiba possa ser algo com algum n\u00edvel de compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, eu j\u00e1 envolvido com arte e cultura na Baixada, novinho, magrinho e cabeludo, tive a honra de trabalhar como animador cultural no segundo mandato do Brizola, em 1993, fazendo parte do Segundo Projeto Especial de Educa\u00e7\u00e3o, no Ciep 434, no Engenho do Porto, em Caxias e isso marcou pra sempre meu ser e acabou decidindo os caminhos que vim a tomar depois. Trabalhei em alguns Cieps e pude perceber que aquilo tinha uma for\u00e7a que poderia de fato ter mudado o curso da hist\u00f3ria do Estado, caso n\u00e3o tivesse sido descontinuado.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia uma dificuldade extrema em retomar a for\u00e7a da primeira vers\u00e3o do Projeto ap\u00f3s os quatro anos de abandono e depreda\u00e7\u00e3o deliberada do governo Moreira Franco, mas a empolga\u00e7\u00e3o das equipes em reconstruir o projeto eram de aquecer o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A persegui\u00e7\u00e3o ao projeto dos Cieps explica tanta coisa sobre o Brasil, sobre o Rio de Janeiro que nem d\u00e1 pra estender aqui\u2026 Deixo s\u00f3 uma frase famosa de quando falavam do alto valor do projeto: \u201ccara \u00e9 a ignor\u00e2ncia\u201d, frase genial que resume o preconceito de nossas elites, para quem tudo que \u00e9 destinado aos pobres \u00e9 \u201cpopulismo\u201d, \u00e9 demagogia, \u00e9 desperd\u00edcio de dinheiro. Ali\u00e1s, \u00f4 cara bom de frases&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1996, eu dirigia uma r\u00e1dio aqui, a Quarup FM e fui entrevistar o Brizola na sa\u00edda de em um evento pol\u00edtico na C\u00e2mara Municipal. Como est\u00e1 registrado numa foto reencontrada h\u00e1 pouco, munido de um microfone de fitinha da R\u00e1dio, fui ao encontro dele na sa\u00edda do evento. Nem me lembro da pergunta que fiz, mas lembro que ele ouviu, se virou pra mim e respondeu com solenidade, e pude sentir no momento o olhar profundo dele, mesmo em meio \u00e0 multid\u00e3o que o rodeava.<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, esse \u00e9 um texto em primeira pessoa pra deixar registrado nesse dia minha admira\u00e7\u00e3o extrema por Leonel de Moura Brizola. Epis\u00f3dios heroicos e fundamentais da biografia do cara hoje s\u00e3o f\u00e1ceis de acessar, como por exemplo a incr\u00edvel hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o da Cadeia da Legalidade, em 1961. Vale a pena conhecer mais sobre o sujeito. Inclusive hoje em dia com o Youtube, \u00e9 s\u00f3 catar e d\u00e1 pra ver o cara em toda a sua verve, sempre com muita paix\u00e3o. Al\u00e9m do cl\u00e1ssico v\u00eddeo do direito de resposta que ele conseguiu arrancar da Globo, lido em rede nacional pelo ic\u00f4nico Cid Moreira \u2013 momento hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixo tamb\u00e9m o registro que nesse ano de centen\u00e1rio \u00e9 lament\u00e1vel que nem Brizola, nem Darcy Ribeiro, que tamb\u00e9m faz cem anos esse ano, sejam homenageados na Passarela do Samba, o Samb\u00f3dromo, dos quais s\u00e3o os pais.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma da tarde, hora do almo\u00e7o; fico por aqui neste texto pessoal que j\u00e1 ficou meio grandinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas redes sociais hoje tenho visto homenagens pipocando e isso \u00e9 bom. Acho que a mem\u00f3ria do Velho Brizola deve ser cada vez mais lembrada, na esperan\u00e7a que seu legado de amor ao povo brasileiro sirva de exemplo de luta pra esse momento tenebroso que estamos vivendo, onde os capachos do imperialismo, os sanguessugas do dinheiro p\u00fablico e as ratazanas bolsonaristas est\u00e3o \u00e0 vontade, impunemente nos assombrando.<\/p>\n\n\n\n<p>Viva Brizola!<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>[heraldo hb \u2013 pitacol\u00e2ndia \u2013 22 d<\/em>e janeiro de 2022]<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, 22 de janeiro de 2022, se completam cem anos do nascimento de Leonel de Moura Brizola, um brasileiro dos melhores que j\u00e1 tiveram, um idealista, um homem simples e apaixonado, incendi\u00e1rio, um sujeito incr\u00edvel cuja hist\u00f3ria merece ser reverenciada&#8230;<br \/><a class=\"read-more-button\" href=\"https:\/\/relinkare.org\/site\/a-guisa-dos-cem-anos-de-leonel-brizola\/\">Leia mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1152,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_kadence_starter_templates_imported_post":false,"footnotes":""},"categories":[7,215],"tags":[266,267,72,106],"class_list":["post-1151","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pitaco","category-pitacolandia","tag-brizola","tag-brizola-100-anos","tag-leonel-brizola","tag-politica"],"views":1199,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1151"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1151\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1155,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1151\/revisions\/1155"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1152"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/relinkare.org\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}